Os Cantos de Maldoror (Português Europeu)
Segundo Canto
Estrofe 1
Estrofe 2
Pego na pena que vai construir o segundo canto… instrumento arrancado às asas de algum pigargo ruivo! Mas… que têm os meus dedos? As articulações permanecem paralisadas assim que começo o meu trabalho. Contudo, preciso de escrever… É impossível! Pois bem, repito que preciso de escrever o meu pensamento: tenho o direito, como qualquer outro, de me submeter a esta lei natural… Mas não, mas não, a pena permanece inerte!… Vede, olhai, através das campanhas, o relâmpago que brilha ao longe. A tempestade percorre o espaço. Chove… Chove sempre… Como chove!... O raio estalou… caiu sobre a minha janela entreaberta e prostrou-me no chão, atingido na testa. Pobre jovem! O teu rosto já estava suficientemente marcado por rugas precoces e pela deformidade de nascença, para não precisar, além disso, desta longa cicatriz sulfurosa! (Acabo de supor que a ferida está curada, o que não acontecerá tão cedo.) Por que esta tempestade, e por que a paralisia dos meus dedos? Será um aviso do alto para me impedir de escrever e para que eu considere melhor aquilo a que me exponho, destilando a baba da minha boca quadrada? Mas esta tempestade não me causou temor. Que me importaria uma legião de tempestades! Estes agentes da polícia celeste cumprem com zelo o seu penoso dever, se julgar sumariamente pela minha testa ferida. Não tenho de agradecer ao Todo-Poderoso a sua notável pontaria; ele enviou o raio de modo a cortar precisamente o meu rosto em dois, a partir da testa, lugar onde a ferida foi mais perigosa: que outro o felicite! Mas as tempestades atacam alguém mais forte que elas. Assim, horrível Eterno, de rosto de víbora, foi preciso que, não satisfeito por teres colocado a minha alma entre as fronteiras da loucura e os pensamentos de fúria que matam de modo lento, julgasses, além disso, conveniente à tua majestade, após maduro exame, fazer brotar da minha testa uma taça de sangue!... Mas, afinal, quem te diz alguma coisa? Sabes que não te amo e que, pelo contrário, te odeio: por que insistes? Quando deixará a tua conduta de se envolver nas aparências da excentricidade? Fala-me francamente, como a um amigo: não suspeitas, por fim, que mostras, na tua odiosa perseguição, um empenho ingénuo, cujo ridículo completo nenhum dos teus serafins ousaria destacar? Que cólera te toma? Saibas que, se me deixasses viver ao abrigo das tuas perseguições, a minha gratidão te pertenceria… Anda, Sultão, com a tua língua, livra-me deste sangue que suja o soalho. O curativo está feito: a minha testa estancada foi lavada com água salgada, e cruzei faixas através do meu rosto. O resultado não é infinito: quatro camisas cheias de sangue e dois lenços. Não se acreditaria, à primeira vista, que Maldoror contivesse tanto sangue nas suas artérias; pois, no seu rosto, brilham apenas os reflexos do cadáver. Mas, enfim, é assim. Talvez seja mais ou menos todo o sangue que o seu corpo pudesse conter, e é provável que não reste muito. Basta, basta, cão ávido; deixa o soalho como está; tens o ventre cheio. Não continues a beber; pois não tardarias a vomitar. Estás devidamente saciado, vai deitar-te na casota; considera-te a nadar na felicidade; pois não pensarás na fome durante três dias imensos, graças aos glóbulos que desceste pela tua goela, com uma satisfação solenemente visível. Tu, Léman, pega numa vassoura; também gostaria de pegar numa, mas não tenho forças. Compreendes, não é verdade, que não tenho forças? Guarda as tuas lágrimas na bainha; senão, acreditaria que não tens coragem de contemplar, com sangue-frio, a grande cicatriz, ocasionada por um suplício já perdido para mim na noite dos tempos passados. Irás buscar à fonte dois baldes de água. Uma vez o soalho lavado, colocarás estes panos na sala ao lado. Se a lavadeira voltar esta noite, como deve fazer, entrega-lhos; mas, como choveu muito há uma hora e continua a chover, não creio que ela saia de casa; então, virá amanhã de manhã. Se ela te perguntar de onde vem todo este sangue, não és obrigado a responder-lhe. Oh! como estou fraco! Não importa; terei, contudo, a força de erguer a caneta e a coragem de escavar o meu pensamento. Que lhe trouxe ao Criador atormentar-me, como se eu fosse uma criança, com uma tempestade que traz o raio? Nem por isso persisto menos na minha resolução de escrever. Estas faixas incomodam-me, e a atmosfera do meu quarto cheira a sangue…Estrofe 3
Que não chegue o dia em que Lohengrin e eu passemos na rua, um ao lado do outro, sem nos olharmos, roçando os cotovelos, como dois transeuntes apressados! Oh! Que me deixem fugir para sempre desta suposição! O Eterno criou o mundo tal como ele é: mostraria muita sabedoria se, durante o tempo estritamente necessário para esmagar com um golpe de martelo a cabeça de uma mulher, esquecesse a sua majestade sideral, para nos revelar os mistérios no meio dos quais a nossa existência sufoca, como um peixe no fundo de um barco. Mas ele é grande e nobre; supera-nos pela potência das suas concepções; se parlamentasse com os homens, todas as vergonhas respingariam até ao seu rosto. Mas… miserável que és! Por que não te envergonhas? Não basta que o exército das dores físicas e morais, que nos rodeia, tenha sido gerado: o segredo do nosso destino em farrapos não nos é desvendado. Eu conheço o Todo-Poderoso… e ele também deve conhecer-me. Se, por acaso, caminharmos no mesmo trilho, a sua vista penetrante vê-me chegar de longe: toma um caminho lateral, para evitar o triplo dardo de platina que a natureza me deu como língua! Far-me-ás um favor, ó Criador, se me deixares desabafar os meus sentimentos. Maneando as ironias terríveis, com uma mão firme e fria, advirto-te que o meu coração conterá o suficiente para te atacar até ao fim da minha existência. Golpearei a tua carcaça oca; e com tal força, que me encarrego de dela extrair as parcelas restantes de inteligência que não quiseste dar ao homem, porque terias ciúmes de o fazer igual a ti, e que escondeste descaradamente nas tuas entranhas, bandido astuto, como se não soubesses que, mais cedo ou mais tarde, eu as descobriria com o meu olho sempre aberto, as arrancaria e as partilharia com os meus semelhantes. Fiz como digo, e agora eles não te temem mais; tratam contigo de potência a potência. Dá-me a morte, para fazer arrepender a minha ousadia: descubro o meu peito e espero com humildade. Aparecei, pois, envergaduras irrisórias de castigos eternos!... desdobramentos enfáticos de atributos demasiado vangloriados! Ele manifestou a incapacidade de deter a circulação do meu sangue que o provoca. Contudo, tenho provas de que não hesita em apagar, na flor da idade, o sopro de outros humanos, quando mal provaram os prazeres da vida. É simplesmente atroz; mas apenas segundo a fraqueza da minha opinião! Vi o Criador, instigando a sua crueldade inútil, atear incêndios onde pereciam velhos e crianças! Não sou eu quem inicia o ataque; é ele quem me força a fazê-lo girar, como um pião, com o chicote de cordas de aço. Não é ele quem me fornece acusações contra si mesmo? Não se esgotará a minha verve espantosa! Ela nutre-se dos pesadelos insensatos que atormentam as minhas insónias. Foi por causa de Lohengrin que o que precede foi escrito; voltemos, pois, a ele. Com receio de que mais tarde se tornasse como os outros homens, decidira primeiro matá-lo a golpes de faca, quando ultrapassasse a idade da inocência. Mas refleti e abandonei sabiamente a minha resolução a tempo. Ele nem suspeita que a sua vida esteve em perigo durante um quarto de hora. Tudo estava pronto, e a faca fora comprada. Esse estilete era encantador, pois amo a graça e a elegância até nos aparelhos da morte; mas era longo e afiado. Uma única ferida no pescoço, perfurando com cuidado uma das artérias carótidas, e creio que teria bastado. Estou satisfeito com a minha conduta; ter-me-ia arrependido mais tarde. Portanto, Lohengrin, faz o que quiseres, age como te aprouver, encerra-me toda a vida numa prisão escura, com escorpiões como companheiros do meu cativeiro, ou arranca-me um olho até que caia ao chão, jamais te farei o menor reparo; sou teu, pertenço-te, já não vivo para mim. A dor que me causares não se comparará à felicidade de saber que aquele que me fere, com as suas mãos assassinas, está impregnado de uma essência mais divina que a dos seus semelhantes! Sim, ainda é belo dar a vida por um ser humano, e assim conservar a esperança de que nem todos os homens são maus, pois houve um, enfim, que soube atrair à força, para si, as repugnâncias desconfiadas da minha simpatia amarga!…Estrofe 4
É meia-noite; já não se vê um único omnibus da Bastilha à Madeleine. Engano-me; eis um que surge subitamente, como se emergisse debaixo da terra. Os poucos transeuntes retardatários observam-no atentamente; pois parece não se assemelhar a nenhum outro. Estão sentados, na imperial, homens de olhar fixo, como o de um peixe morto. Encontram-se apertados uns contra os outros e parecem ter perdido a vida; de resto, o número regulamentar não é excedido. Quando o cocheiro dá uma chicotada nos cavalos, dir-se-ia que é o chicote que move o seu braço, e não o braço o chicote. Que devem ser estes seres bizarros e mudos? Serão habitantes da lua? Há momentos em que se seria tentado a crê-lo; mas assemelham-se mais a cadáveres. O omnibus, apressado por chegar à última estação, devora o espaço e faz estalar o pavimento… Foge!... Mas uma massa informe persegue-o com obstinação, nos seus rastos, no meio do pó.
«Parai, suplico-vos; parai… as minhas pernas estão inchadas de tanto caminhar durante o dia… não como desde ontem… os meus pais abandonaram-me… não sei mais o que fazer… resolvi voltar para casa, e lá chegaria depressa, se me concedêsseis um lugar… sou uma criança de oito anos, e confio em vós…»
Foge!... Foge!... Mas uma massa informe persegue-o com obstinação, nos seus rastos, no meio do pó. Um desses homens, de olhar frio, dá uma cotovelada ao vizinho e parece exprimir o seu desagrado por esses gemidos, de timbre argentino, que lhe chegam ao ouvido. O outro baixa a cabeça de modo quase imperceptível, em sinal de assentimento, e mergulha de novo na imobilidade do seu egoísmo, como uma tartaruga na sua carapaça. Tudo indica, nos traços dos outros viajantes, os mesmos sentimentos que os dos dois primeiros. Os gritos ainda se fazem ouvir durante dois ou três minutos, cada vez mais agudos a cada segundo. Veem-se janelas abrirem-se no boulevard, e uma figura assustada, com uma luz na mão, após lançar os olhos sobre a calçada, fecha o postigo com ímpeto, para não mais reaparecer… Foge!... Foge!... Mas uma massa informe persegue-o com obstinação, nos seus rastos, no meio do pó. Apenas um jovem, perdido em devaneios, no meio destes personagens de pedra, parece sentir piedade pelo infortúnio. Em favor da criança, que acredita poder alcançá-lo com as suas pernas doridas, não ousa erguer a voz; pois os outros homens lançam-lhe olhares de desprezo e autoridade, e ele sabe que nada pode fazer contra todos. Com o cotovelo apoiado nos joelhos e a cabeça entre as mãos, pergunta-se, estupefacto, se é realmente isso que chamam caridade humana. Reconhece então que não passa de uma palavra vã, que já não se encontra nem no dicionário da poesia, e admite com franqueza o seu erro. Diz consigo: «Na verdade, por que me interessar por uma criança? Deixemo-la de lado.» Contudo, uma lágrima ardente rolou pela face deste adolescente, que acaba de blasfemar. Passa a mão com dificuldade pela testa, como para afastar uma nuvem cuja opacidade obscurece a sua inteligência. Debate-se, mas em vão, no século em que foi lançado; sente que não está no seu lugar, e no entanto não pode sair dele. Prisão terrível! Fatalidade hedionda! Lombano, estou satisfeito contigo desde esse dia! Não cessava de te observar, enquanto o meu rosto respirava a mesma indiferença que o dos outros viajantes. O adolescente levanta-se, num movimento de indignação, e quer retirar-se, para não participar, mesmo involuntariamente, numa má acção. Faço-lhe um sinal, e ele volta a sentar-se ao meu lado… Foge!... Foge!... Mas uma massa informe persegue-o com obstinação, nos seus rastos, no meio do pó. Os gritos cessam subitamente; pois a criança tropeçou numa pedra saliente e feriu a cabeça ao cair. O omnibus desapareceu no horizonte, e só se vê a rua silenciosa… Foge!... Foge!... Mas uma massa informe já não o persegue com obstinação, nos seus rastos, no meio do pó. Vede este trapeiro que passa, curvado sobre a sua lanterna pálida; há nele mais coração que em todos os seus iguais do omnibus. Acaba de recolher a criança; estai certo de que a curará e não a abandonará, como fizeram os seus pais. Foge!... Foge!... Mas, do lugar onde se encontra, o olhar penetrante do trapeiro persegue-o com obstinação, nos seus rastos, no meio do pó!... Raça estúpida e idiota! Arrepender-te-ás de te conduzires assim. Sou eu quem to diz. Arrepender-te-ás, sim! Arrepender-te-ás. A minha poesia consistirá apenas em atacar, por todos os meios, o homem, essa fera selvagem, e o Criador, que não deveria ter gerado semelhante vermina. Os volumes amontoar-se-ão sobre os volumes, até ao fim da minha vida, e, no entanto, só se verá neles esta única ideia, sempre presente à minha consciência!
Estrofe 5
Fazendo o meu passeio quotidiano, passava todos os dias por uma rua estreita; todos os dias, uma jovem esguia de dez anos seguia-me, a distância, respeitosamente, ao longo dessa rua, fitando-me com pálpebras simpáticas e curiosas. Era alta para a sua idade e tinha a cintura elegante. Abundantes cabelos negros, divididos em dois sobre a cabeça, caíam em tranças independentes sobre ombros marmóreos. Um dia, seguia-me como de costume; os braços musculosos de uma mulher do povo agarraram-na pelos cabelos, como o redemoinho agarra a folha, aplicaram duas bofetadas brutais numa face orgulhosa e muda, e levaram de volta para casa essa consciência desnorteada. Em vão, eu fingia indiferença; ela nunca deixava de me perseguir com a sua presença, agora inoportuna. Quando eu enveredava por outra rua para prosseguir o meu caminho, ela detinha-se, fazendo um esforço violento sobre si mesma, no termo dessa rua estreita, imóvel como a estátua do Silêncio, e não cessava de olhar em frente, até que eu desaparecesse. Uma vez, essa jovem adiantou-se-me na rua e caminhou à minha frente. Se eu acelerava para a ultrapassar, ela quase corria para manter a distância igual; mas, se eu abrandava o passo, para que houvesse um intervalo de caminho suficientemente grande entre ela e eu, então ela também o abrandava, com a graça da infância. Chegada ao fim da rua, voltou-se lentamente, de modo a barrar-me a passagem. Não tive tempo de me esquivar, e encontrei-me diante do seu rosto. Tinha os olhos inchados e vermelhos. Via-se facilmente que queria falar-me, mas não sabia como começar. Tornando-se subitamente pálida como um cadáver, perguntou-me: «Teríeis a bondade de me dizer que horas são?» Respondi-lhe que não trazia relógio e afastei-me rapidamente. Desde esse dia, criança de imaginação inquieta e precoce, não voltaste a ver, na rua estreita, o jovem misterioso que batia penosamente, com a sua sandália pesada, o pavimento das encruzilhadas tortuosas. A aparição dessa cometa inflamada não reluzirá mais, como um triste motivo de curiosidade fanática, na fachada da tua observação dececionada; e pensarás frequentemente, demasiado frequentemente, talvez sempre, naquele que não parecia preocupar-se com os males nem com os bens da vida presente, e seguia ao acaso, com um rosto horrivelmente morto, os cabelos eriçados, o passo vacilante, e os braços nadando cegamente nas águas irónicas do éter, como se buscasse a presa sangrenta da esperança, sacudida continuamente, através das imensas regiões do espaço, pelo limpa-neves implacável da fatalidade. Não me verás mais, e eu não te verei mais!... Quem sabe? Talvez essa rapariga não fosse o que aparentava. Sob uma aparência ingénua, escondia talvez uma imensa astúcia, o peso de dezoito anos e o encanto do vício. Já se viram vendedoras de amor expatriarem-se com alegria das ilhas Britânicas e cruzarem o estreito. Desfraldavam as suas asas, girando em enxames dourados, diante da luz parisiense; e, quando as avistáveis, dizias: «Mas elas ainda são crianças; não têm mais de dez ou doze anos.» Na realidade, tinham vinte. Oh! Nesta suposição, malditos sejam os desvios dessa rua obscura! Horrível! Horrível! o que ali se passa. Creio que a mãe a esbofeteou porque ela não exercia o seu ofício com suficiente destreza. É possível que fosse apenas uma criança, e então a mãe é ainda mais culpada. Eu não quero acreditar nesta suposição, que não passa de uma hipótese, e prefiro amar, nesse carácter romanesco, uma alma que se revela demasiado cedo… Ah! Vês-tu, jovem, aconselho-te a não reapareceres diante dos meus olhos, se algum dia eu voltar a passar pela rua estreita. Poderia custar-te caro! Já o sangue e o ódio me sobem à cabeça, em vagas ardentes. Eu, ser generoso o suficiente para amar os meus semelhantes! Não, não! Resolvi-o desde o dia do meu nascimento! Eles não me amam, esses! Ver-se-ão os mundos destruírem-se, e o granito deslizar, como um corvo-marinho, sobre a superfície das ondas, antes que eu toque na mão infame de um ser humano. Para trás… para trás, essa mão!... Jovem, não és um anjo, e acabarás por ser, em suma, como as outras mulheres. Não, não, suplico-te; não voltes a aparecer diante das minhas sobrancelhas franzidas e vesgas. Num momento de desvario, poderia agarrar-te os braços, torcê-los como um pano lavado de que se espreme a água, ou quebrá-los com estrondo, como dois ramos secos, e depois fazer-te comê-los, usando a força. Poderia, tomando a tua cabeça entre as mãos, com um ar carinhoso e doce, cravar os meus dedos ávidos nos lobos do teu cérebro inocente, para deles extrair, com um sorriso nos lábios, uma gordura eficaz que lave os meus olhos, doridos pela insónia eterna da vida. Poderia, cosendo as tuas pálpebras com uma agulha, privar-te do espectáculo do universo e impedir-te de encontrar o teu caminho; não serei eu a guiar-te. Poderia, erguendo o teu corpo virgem com um braço de ferro, agarrar-te pelas pernas, fazer-te girar à minha volta, como uma funda, concentrar as minhas forças ao descrever a última circunferência, e lançar-te contra a parede. Cada gota de sangue respingará sobre um peito humano, para assustar os homens e colocar diante deles o exemplo da minha maldade! Eles arrancar-se-ão sem trégua pedaços e pedaços de carne; mas a gota de sangue permanece indelével, no mesmo lugar, e brilhará como um diamante. Fica tranquila, darei a meia dúzia de criados a ordem de guardar os restos venerados do teu corpo, e de os preservar da fome dos cães vorazes. Sem dúvida, o corpo ficou colado à parede, como uma pera madura, e não caiu ao chão; mas os cães sabem dar saltos altos, se não se tomar cuidado.Estrofe 6
Esta criança, que está sentada num banco do jardim das Tulherias, como é gentil! Os seus olhos ousados fixam algum objecto invisível, ao longe, no espaço. Não deve ter mais de oito anos e, no entanto, não se diverte, como seria próprio. Pelo menos deveria rir e passear com algum camarada, em vez de ficar só; mas esse não é o seu carácter. Esta criança, que está sentada num banco do jardim das Tulherias, como é gentil! Um homem, movido por um intento oculto, vem sentar-se ao seu lado, no mesmo banco, com maneiras equívocas. Quem é ele? Não preciso de vo-lo dizer; pois reconhecê-lo-eis pela sua conversa tortuosa. Escutemo-los, não os perturbemos:
— Em que pensavas, criança?
— Pensava no céu.
— Não é necessário que penses no céu; já basta pensares na terra. Estás cansado de viver, tu, que mal acabaste de nascer?
— Não, mas cada um prefere o céu à terra.
— Pois bem, eu não. Porque, já que o céu foi feito por Deus, assim como a terra, tem a certeza de que lá encontrarás os mesmos males que aqui em baixo. Após a tua morte, não serás recompensado segundo os teus méritos; pois, se te cometem injustiças nesta terra (como o experimentarás, por experiência, mais tarde), não há razão para que, na outra vida, também não tas cometam. O melhor que tens a fazer é não pensar em Deus e fazer justiça com as tuas próprias mãos, já que ta recusam. Se um dos teus camaradas te ofendesse, não ficarias feliz em matá-lo?
— Mas isso é proibido.
— Não é tão proibido como pensas. Trata-se apenas de não te deixares apanhar. A justiça que as leis trazem não vale nada; é a jurisprudência do ofendido que conta. Se detestasses um dos teus camaradas, não te sentirias infeliz por pensar que, a cada instante, tens o seu pensamento diante dos teus olhos?
— É verdade.
— Eis então um dos teus camaradas que te tornaria infeliz toda a vida; pois, vendo que o teu ódio é apenas passivo, ele não deixará de se rir de ti e de te causar mal impunemente. Há, pois, apenas um meio de fazer cessar a situação: é livrares-te do teu inimigo. Foi a isto que quis chegar, para te fazer compreender em que bases se funda a sociedade actual. Cada um deve fazer justiça por si mesmo, senão não passa de um idiota. Aquele que triunfa sobre os seus semelhantes, esse é o mais astuto e o mais forte. Não gostarias de um dia dominar os teus semelhantes?
— Sim, sim.
— Então, sê o mais forte e o mais astuto. Ainda és demasiado jovem para seres o mais forte; mas, desde hoje, podes usar a astúcia, o mais belo instrumento dos homens de génio. Quando o pastor David atingiu a testa do gigante Golias com uma pedra lançada pela funda, não é admirável notar que foi apenas pela astúcia que David venceu o seu adversário, e que, se, pelo contrário, se tivessem enfrentado corpo a corpo, o gigante o teria esmagado como uma mosca? O mesmo se passa contigo. Em guerra aberta, jamais poderás vencer os homens sobre os quais desejas impor a tua vontade; mas, com a astúcia, poderás lutar sozinho contra todos. Desejas riquezas, belos palácios e glória? Ou enganaste-me quando me afirmaste essas nobres pretensões?
— Não, não, não te enganei. Mas gostaria de adquirir o que desejo por outros meios.
— Então, não adquirirás nada. Os meios virtuosos e ingénuos não levam a lado nenhum. É preciso pôr em obra alavancas mais enérgicas e tramas mais sábias. Antes que te tornes célebre pela tua virtude e alcances o objectivo, cem outros terão tempo de dar piruetas por cima das tuas costas e chegar ao fim da carreira antes de ti, de tal modo que não haverá mais lugar para as tuas ideias estreitas. É preciso saber abraçar, com mais grandeza, o horizonte do tempo presente. Nunca ouviste falar, por exemplo, da glória imensa que as vitórias trazem? E, no entanto, as vitórias não se fazem sozinhas. É preciso derramar sangue, muito sangue, para as gerar e depositá-las aos pés dos conquistadores. Sem os cadáveres e os membros espalhados que vês na planície, onde se operou sabiamente o carnage, não haveria guerra, e, sem guerra, não haveria vitória. Vês que, quando se quer tornar célebre, é preciso mergulhar com graça em rios de sangue, alimentados por carne para canhão. O fim desculpa o meio. A primeira coisa, para te tornares célebre, é ter dinheiro. Ora, como não o tens, terás de assassinar para o adquirir; mas, como não és forte o suficiente para manejar o punhal, faz-te ladrão, enquanto esperas que os teus membros cresçam. E, para que cresçam mais depressa, aconselho-te a fazer ginástica duas vezes por dia, uma hora de manhã, uma hora à noite. Desta maneira, poderás tentar o crime, com algum sucesso, a partir dos quinze anos, em vez de esperares até aos vinte. O amor pela glória tudo desculpa, e talvez, mais tarde, senhor dos teus semelhantes, lhes faças quase tanto bem quanto mal lhes fizeste no início!...
Maldoror apercebe-se de que o sangue ferve na cabeça do seu jovem interlocutor; as narinas estão inchadas, e os lábios expelem uma leve espuma branca. Toca-lhe o pulso; as pulsações estão aceleradas. A febre tomou esse corpo delicado. Teme as consequências das suas palavras; esquiva-se, o infeliz, contrariado por não ter podido entreter esta criança por mais tempo. Quando, na idade madura, é tão difícil dominar as paixões, oscilando entre o bem e o mal, que será num espírito ainda cheio de inexperiência? E quanta energia relativa não lhe será ainda mais necessária? A criança safar-se-á ficando de cama três dias. Queira o céu que o contacto materno traga paz a essa flor sensível, frágil invólucro de uma bela alma!
Estrofe 7
Ali, num bosquete cercado de flores, dorme o hermafrodita, profundamente adormecido sobre o relvado, molhado pelas suas lágrimas. A lua libertou o seu disco da massa de nuvens e acaricia com os seus pálidos raios essa doce figura de adolescente. Os seus traços exprimem a energia mais viril, ao mesmo tempo que a graça de uma virgem celeste. Nada parece natural nele, nem mesmo os músculos do seu corpo, que se abrem caminho através dos contornos harmoniosos de formas femininas. Tem o braço curvado sobre a testa, a outra mão pousada contra o peito, como para comprimir as batidas de um coração fechado a todas as confidências e carregado do pesado fardo de um segredo eterno. Cansado da vida e envergonhado de caminhar entre seres que não lhe são semelhantes, o desespero apoderou-se da sua alma, e ele segue sozinho, como o mendigo do vale. Como obtém os meios de subsistência? Almas compassivas velam por ele de perto, sem que ele suspeite dessa vigilância, e não o abandonam: é tão bom! tão resignado! Por vezes, fala de bom grado com aqueles que têm um carácter sensível, sem lhes tocar a mão, mantendo-se a distância, por temor de um perigo imaginário. Se lhe perguntam por que escolheu a solidão como companheira, os seus olhos erguem-se para o céu e contêm com dificuldade uma lágrima de reprovação contra a Providência; mas não responde a essa questão imprudente, que espalha, na neve das suas pálpebras, o rubor da rosa matinal. Se a conversa se prolonga, torna-se inquieto, vira os olhos para os quatro pontos do horizonte, como se procurasse fugir da presença de um inimigo invisível que se aproxima, faz com a mão um adeus brusco, afasta-se nas asas da sua pudicícia desperta e desaparece na floresta. Geralmente, tomam-no por louco. Um dia, quatro homens mascarados, que haviam recebido ordens, lançaram-se sobre ele e amarraram-no solidamente, de modo que só pudesse mover as pernas. O chicote abateu as suas rudes correias sobre o seu dorso, e disseram-lhe que se dirigisse sem demora para a estrada que leva a Bicêtre. Ele começou a sorrir ao receber os golpes e falou-lhes com tanto sentimento e inteligência sobre muitas ciências humanas que estudara, mostrando uma vasta instrução naquele que ainda não ultrapassara o limiar da juventude, e sobre os destinos da humanidade, onde revelou inteiramente a nobreza poética da sua alma, que os seus guardas, aterrorizados até ao sangue pela acção que haviam cometido, desataram os seus membros quebrados, arrastaram-se aos seus joelhos, pedindo um perdão que foi concedido, e afastaram-se com marcas de uma veneração que não se costuma atribuir aos homens. Desde esse evento, de que muito se falou, o seu segredo foi adivinhado por todos, mas fingem ignorá-lo, para não aumentar os seus sofrimentos; e o governo concede-lhe uma pensão honrosa, para o fazer esquecer que, por um instante, quiseram introduzi-lo à força, sem verificação prévia, num hospício de alienados. Ele utiliza metade do seu dinheiro; o resto, dá-o aos pobres. Quando vê um homem e uma mulher passearem por alguma alameda de plátanos, sente o seu corpo dividir-se em dois, de baixo a cima, e cada nova parte ir abraçar um dos passeantes; mas é apenas uma alucinação, e a razão não tarda a reassumir o seu domínio. Por isso, não mistura a sua presença nem entre os homens, nem entre as mulheres; pois a sua pudicícia excessiva, que nasceu da ideia de que é apenas um monstro, impede-o de conceder a sua simpatia ardente a quem quer que seja. Creria profaná-la, e creria profaná-los. O seu orgulho repete-lhe este axioma: «Que cada um permaneça na sua natureza.» O seu orgulho, digo eu, porque teme que, ao unir a sua vida a um homem ou a uma mulher, lhe reprochem cedo ou tarde, como uma falta enorme, a conformação da sua organização. Então, refugia-se no seu amor-próprio, ofendido por esta suposição ímpia que vem apenas dele, e persevera em ficar só, no meio dos tormentos, sem consolação. Ali, num bosquete cercado de flores, dorme o hermafrodita, profundamente adormecido sobre o relvado, molhado pelas suas lágrimas. Os pássaros, despertos, contemplam com encantamento essa figura melancólica, através dos ramos das árvores, e o rouxinol não quer fazer soar as suas cavatinas de cristal. O bosque tornou-se augusto como um túmulo, pela presença nocturna do hermafrodita infeliz. Ó viajante perdido, pelo teu espírito de aventura que te fez abandonar teu pai e tua mãe desde a mais tenra idade; pelos sofrimentos que a sede te causou no deserto; pela tua pátria, que talvez procures, após teres vagueado longamente, proscrito, em terras estranhas; pelo teu corcel, teu fiel amigo, que suportou contigo o exílio e as intempéries dos climas que a tua índole errante te fazia atravessar; pela dignidade que os viajes sobre terras distantes e mares inexplorados, entre os gelos polares ou sob a influência de um sol tórrido, conferem ao homem, não toques com a tua mão, como com um frémito da brisa, nesses cachos de cabelo espalhados pelo chão, que se misturam à erva verde. Afasta-te vários passos, e agirás melhor assim. Esta cabeleira é sagrada; foi o próprio hermafrodita quem o quis. Ele não quer que lábios humanos beijem religiosamente os seus cabelos, perfumados pelo sopro da montanha, nem a sua testa, que neste instante resplandece como as estrelas do firmamento. Mas é mais acertado crer que uma estrela mesma desceu da sua órbita, atravessando o espaço, sobre essa testa majestosa, que ela envolve com a sua claridade de diamante, como uma auréola. A noite, afastando com o dedo a sua tristeza, reveste-se de todos os seus encantos para celebrar o sono dessa encarnação da pudicícia, dessa imagem perfeita da inocência dos anjos: o murmúrio dos insectos torna-se menos perceptível. Os ramos inclinam sobre ele a sua elevação frondosa, para o proteger do orvalho, e a brisa, fazendo ressoar as cordas da sua harpa melodiosa, envia os seus acordes alegres, através do silêncio universal, para essas pálpebras cerradas, que acreditam assistir, imóveis, ao concerto cadenciado dos mundos suspensos. Ele sonha que é feliz; que a sua natureza corporal mudou; ou que, pelo menos, se elevou num nuvem púrpura para outra esfera, habitada por seres da mesma natureza que ele. Ai! que a sua ilusão se prolongue até ao despertar da aurora! Sonha que as flores dançam à sua volta em círculo, como imensas grinaldas loucas, e o impregnam dos seus perfumes suaves, enquanto ele canta um hino de amor, nos braços de um ser humano de beleza mágica. Mas é apenas um vapor crepuscular que os seus braços entrelaçam; e, quando despertar, os seus braços não o entrelaçarão mais. Não despertes, hermafrodita; não despertes ainda, suplico-te. Por que não queres acreditar-me? Dorme… dorme sempre. Que o teu peito se eleve, perseguindo a esperança quimérica da felicidade, permito-to; mas não abras os teus olhos. Ah! Não abras os teus olhos! Quero deixar-te assim, para não ser testemunha do teu despertar. Talvez um dia, com a ajuda de um livro volumoso, em páginas comovidas, contarei a tua história, aterrorizado com o que ela contém e com os ensinamentos que dela se desprendem. Até agora, não o consegui; pois, cada vez que o quis, abundantes lágrimas caíam sobre o papel, e os meus dedos tremiam, sem que fosse de velhice. Mas quero ter, por fim, essa coragem. Estou indignado por não ter mais nervos que uma mulher e por desmaiar, como uma menina, cada vez que reflicto sobre a tua grande miséria. Dorme… dorme sempre; mas não abras os teus olhos. Ah! Não abras os teus olhos! Adeus, hermafrodita! Cada dia, não deixarei de rezar ao céu por ti (se fosse por mim, não o rezaria). Que a paz esteja no teu seio!Estrofe 8
Quando uma mulher, com voz de soprano, emite as suas notas vibrantes e melodiosas, à audição dessa harmonia humana, os meus olhos enchem-se de uma chama latente e lançam faíscas dolorosas, enquanto nos meus ouvidos parece ressoar o dobre dos sinos da canhonada. De onde pode vir esta repugnância profunda por tudo o que pertence ao homem? Se os acordes se elevam das fibras de um instrumento, escuto com volúpia essas notas perladas que escapam em cadência através das ondas elásticas da atmosfera. A percepção transmite ao meu ouvido apenas uma impressão de uma doçura que dissolve os nervos e o pensamento; um torpor inefável envolve, com os seus papoilas mágicas, como um véu que filtra a luz do dia, a potência activa dos meus sentidos e as forças vivas da minha imaginação. Conta-se que nasci nos braços da surdez! Nas primeiras épocas da minha infância, não ouvia o que me diziam. Quando, com as maiores dificuldades, conseguiram ensinar-me a falar, era apenas depois de ler num papel o que alguém escrevia que eu podia comunicar, por minha vez, o fio dos meus raciocínios. Um dia, dia nefasto, eu crescia em beleza e inocência; e todos admiravam a inteligência e a bondade do divino adolescente. Muitas consciências coravam ao contemplar esses traços límpidos onde a sua alma havia colocado o seu trono. Só se aproximavam dele com veneração, pois notava-se nos seus olhos o olhar de um anjo. Mas não, eu sabia de sobra que as rosas felizes da adolescência não deveriam florir perpetuamente, entrelaçadas em grinaldas caprichosas, sobre a sua testa modesta e nobre, que todas as mães beijavam com frenesim. Começava a parecer-me que o universo, com a sua abóbada estrelada de globos impassíveis e irritantes, talvez não fosse o que eu sonhara de mais grandioso. Um dia, pois, cansado de calcorrear com o pé o trilho íngreme da viagem terrestre e de avançar, cambaleando como um homem ébrio, pelas catacumbas obscuras da vida, ergui lentamente os meus olhos esplenéticos, circundados por um grande círculo azulado, para a concavidade do firmamento, e ousei penetrar, eu, tão jovem, os mistérios do céu! Não encontrando o que procurava, levantei ainda mais a pálpebra assustada, mais alto, mais alto ainda, até que avistei um trono, formado de excrementos humanos e ouro, sobre o qual se sentava, com um orgulho idiota, coberto por um sudário feito de lençóis não lavados de hospital, aquele que se intitula o Criador! Tinha na mão o tronco putrefacto de um homem morto e levava-o, alternadamente, dos olhos ao nariz e do nariz à boca; uma vez na boca, adivinha-se o que fazia com ele. Os seus pés mergulhavam numa vasta poça de sangue em ebulição, à superfície da qual emergiam de súbito, como ténias através do conteúdo de um penico, duas ou três cabeças prudentes, que logo se abaixavam, com a rapidez da flecha: um pontapé, bem aplicado no osso do nariz, era a recompensa conhecida pela revolta contra o regulamento, motivada pela necessidade de respirar outro meio; pois, afinal, esses homens não eram peixes! No máximo anfíbios, nadavam entre duas águas nesse líquido imundo!... até que, não tendo mais nada na mão, o Criador, com as duas primeiras garras do pé, agarrava outro mergulhador pelo pescoço, como numa tenaz, e o erguia no ar, fora do lodo avermelhado, molho exquisito! Com esse, fazia como com o outro. Devorava-lhe primeiro a cabeça, as pernas e os braços, e por último o tronco, até não restar nada; pois ele triturava os ossos. Assim continuava, nas outras horas da sua eternidade. Por vezes exclamava:
«Eu vos criei; portanto, tenho o direito de fazer de vós o que quiser. Não me fizestes nada, não digo o contrário. Faço-vos sofrer, e é para o meu prazer.»
E retomava a sua refeição cruel, movendo a mandíbula inferior, que agitava a sua barba cheia de miolos. Ó leitor, este último detalhe não te faz vir água à boca? Nem todos comem de um cérebro assim, tão bom, fresquinho, acabado de ser pescado há apenas um quarto de hora no lago dos peixes. Com os membros paralisados e a garganta muda, contemplei por algum tempo este espectáculo. Três vezes, quase caí de costas, como um homem que sofre uma emoção demasiado forte; três vezes, consegui manter-me de pé. Nenhuma fibra do meu corpo ficava imóvel; e eu tremia, como treme a lava interior de um vulcão. Por fim, com o peito oprimido, não podendo expelir com suficiente rapidez o ar que dá vida, os lábios da minha boca entreabriram-se, e soltei um grito… um grito tão dilacerante… que o ouvi! Os grilhões do meu ouvido desfizeram-se bruscamente, o tímpano estalou sob o impacto dessa massa de ar sonoro repelida para longe de mim com energia, e ocorreu um fenómeno novo no órgão condenado pela natureza. Acabava de ouvir um som! Um quinto sentido revelava-se em mim! Mas que prazer poderia eu encontrar numa tal descoberta? Doravante, o som humano chegava ao meu ouvido apenas com o sentimento da dor que provoca a piedade por uma grande injustiça. Quando alguém me falava, eu recordava o que vira, um dia, acima das esferas visíveis, e a tradução dos meus sentimentos sufocados num urro impetuoso, cujo timbre era idêntico ao dos meus semelhantes! Não podia responder-lhe; pois os suplícios exercidos sobre a fraqueza do homem, nesse mar hediondo de púrpura, passavam diante da minha testa rugindo como elefantes esfolados, e roçavam com as suas asas de fogo os meus cabelos calcinados. Mais tarde, quando conheci melhor a humanidade, a esse sentimento de piedade juntou-se uma fúria intensa contra essa tigresa madrasta, cujos filhos endurecidos só sabem amaldiçoar e fazer o mal. Audácia da mentira! Dizem que o mal está neles apenas como excepção!... Agora, isso terminou há muito; há muito que não dirijo a palavra a ninguém. Ó vós, quem quer que sejais, quando estiverdes ao meu lado, que as cordas da vossa glote não deixem escapar nenhuma entoação; que o vosso laringe imóvel não tente superar o rouxinol; e vós mesmos não procureis de modo algum dar-me a conhecer a vossa alma pelo linguagem. Mantende um silêncio religioso, que nada interrompa; cruzai humildemente as mãos sobre o peito e dirigi as vossas pálpebras para baixo. Já vos disse, desde a visão que me fez conhecer a verdade suprema, bastantes pesadelos sugaram avidamente a minha garganta, durante as noites e os dias, para que eu ainda tenha coragem de renovar, mesmo em pensamento, os sofrimentos que experimentei nessa hora infernal, que me persegue sem trégua com a sua memória. Oh! Quando ouvis a avalanche de neve cair do alto da montanha fria; a leoa lamentar-se, no deserto árido, pelo desaparecimento dos seus filhotes; a tempestade cumprir o seu destino; o condenado gemer, na prisão, na véspera da guilhotina; e o polvo feroz contar, às ondas do mar, as suas vitórias sobre os nadadores e os náufragos, dizei-me, essas vozes majestosas não são mais belas que o risinho do homem?
Estrofe 9
Existe um insecto que os homens alimentam às suas custas. Nada lhe devem; mas temem-no. Este, que não gosta de vinho, mas prefere o sangue, se não se satisfizessem as suas necessidades legítimas, seria capaz, por um poder oculto, de crescer até ao tamanho de um elefante, esmagando os homens como espigas. Por isso, é preciso ver como o respeitam, como o rodeiam de uma veneração canina, como o colocam em alta estima acima dos animais da criação. Dão-lhe a cabeça como trono, e ele, com dignidade, agarra as suas garras à raiz dos cabelos. Mais tarde, quando está gordo e entra numa idade avançada, imitando o costume de um povo antigo, matam-no, para que não sinta os achaques da velhice. Fazem-lhe funerais grandiosos, como a um herói, e o caixão, que o conduz directamente ao tampo da sepultura, é carregado aos ombros pelos principais cidadãos. Sobre a terra húmida que o coveiro revolve com a sua pá sagaz, combinam frases multicolores sobre a imortalidade da alma, sobre o nada da vida, sobre a vontade inexplicável da Providência, e o mármore fecha-se, para sempre, sobre essa existência, laboriosamente preenchida, que não é mais que um cadáver. A multidão dispersa-se, e a noite não tarda a cobrir com as suas sombras as muralhas do cemitério.
Mas consolai-vos, humanos, da sua perda dolorosa. Eis a sua família inumerável, que avança, e da qual ele vos agraciou liberalmente, para que o vosso desespero fosse menos amargo, e como que suavizado pela presença agradável destes abortos rancorosos, que mais tarde se tornarão magníficos piolhos, ornados de uma beleza notável, monstros de aparência sábia. Ele chocou várias dúzias de ovos queridos, com a sua asa maternal, sobre os vossos cabelos, ressequidos pela sucção obstinada destes estranhos temidos. O período chegou depressa, em que os ovos eclodiram. Não temais, eles não tardarão a crescer, esses adolescentes filósofos, através desta vida efémera. Crescerão tanto que vos farão senti-lo, com as suas garras e os seus sugadores.
Não sabeis, vós outros, por que não devoram os ossos da vossa cabeça, contentando-se em extrair, com a sua bomba, a quintessência do vosso sangue. Esperai um instante, vou-vos dizer: é porque não têm força para tal. Tende a certeza de que, se a sua mandíbula correspondesse à medida dos seus desejos infinitos, o cérebro, a retina dos olhos, a coluna vertebral, todo o vosso corpo passaria por aí. Como uma gota d’água. Na cabeça de um jovem mendigo das ruas, observai, com um microscópio, um piolho que trabalha; dar-me-eis notícias. Infelizmente, são pequenos, estes bandidos dos cabelos longos. Não seriam bons para recrutas; pois não têm a estatura necessária exigida pela lei. Pertencem ao mundo liliputiano dos de coxa curta, e os cegos não hesitam em classificá-los entre os infinitamente pequenos. Ai da baleia que lutasse contra um piolho. Seria devorada num piscar de olhos, apesar do seu tamanho. Não restaria a cauda para ir dar a notícia. O elefante deixa-se acariciar. O piolho, não. Não vos aconselho a tentar essa experiência arriscada. Cuidado, se a vossa mão for peluda, ou se for apenas composta de ossos e carne. Estará tudo acabado para os vossos dedos. Estalarão como se estivessem sob tortura. A pele desaparece por um estranho encantamento. Os piolhos são incapazes de cometer tanto mal quanto a sua imaginação planeia. Se encontrardes um piolho no vosso caminho, segui em frente e não lhe lambais as papilas da língua. Algo vos aconteceria. Já se viu isso. Não importa, já estou satisfeito com a quantidade de mal que ele vos faz, ó raça humana; apenas gostaria que vos fizesse mais.
Até quando manterás o culto carcomido desse deus, insensível às tuas preces e às oferendas generosas que lhe ofereces em holocausto expiatório? Vê, ele não é grato, esse manitu horrível, pelas largas taças de sangue e cérebro que espalhas sobre os seus altares, piedosamente decorados com grinaldas de flores. Não é grato… pois os tremores de terra e as tempestades continuam a grassar desde o início das coisas. E, no entanto, espectáculo digno de observação, quanto mais ele se mostra indiferente, mais o admiras. Vê-se que desconfias dos seus atributos, que ele esconde; e o teu raciocínio apoia-se nesta consideração, que só uma divindade de poder extremo pode mostrar tanto desprezo pelos fiéis que obedecem à sua religião. É por isso que, em cada país, existem deuses diversos, aqui o crocodilo, ali a vendedora de amor; mas, quando se trata do piolho, a esse nome sagrado, beijando universalmente as correntes da sua escravidão, todos os povos se ajoelham juntos no adro augusto, diante do pedestal da ídolo informe e sanguinário. O povo que não obedecesse aos seus próprios instintos de rastejar e fizesse menção de revolta desapareceria, cedo ou tarde, da terra, como uma folha de outono, aniquilado pela vingança do deus inexorável.
Ó piolho, de pupila encolhida, enquanto os rios derramarem a vertente das suas águas nos abismos do mar; enquanto os astros gravitarem no trilho da sua órbita; enquanto o vazio mudo não tiver horizonte; enquanto a humanidade rasgar os seus próprios flancos com guerras funestas; enquanto a justiça divina precipitar os seus raios vingadores sobre este globo egoísta; enquanto o homem desconhecer o seu criador e se rir dele, não sem razão, misturando-lhe desprezo, o teu reino estará assegurado sobre o universo, e a tua dinastia estenderá os seus anéis de século em século. Saúdo-te, sol nascente, libertador celeste, tu, inimigo invisível do homem. Continua a dizer à sujidade que se una a ele em abraços impuros e lhe jure, por juramentos não escritos no pó, que será a sua amante fiel até à eternidade. Beija de vez em quando a veste dessa grande impudica, em memória dos serviços importantes que ela não deixa de te prestar. Se ela não seduzisse o homem, com os seus seios lascivos, é provável que tu não pudesses existir, tu, produto desse acasalamento razoável e consequente. Ó filho da sujidade! Diz à tua mãe que, se ela abandonar o leito do homem, caminhando por estradas solitárias, só e sem apoio, verá a sua existência comprometida. Que as suas entranhas, que te carregaram nove meses nas suas paredes perfumadas, se comovam um instante ao pensar nos perigos que correria, por consequência, o seu tenro fruto, tão gentil e tranquilo, mas já frio e feroz. Sujidade, rainha dos impérios, conserva aos olhos do meu ódio o espectáculo do crescimento subtil dos músculos da tua prole faminta. Para alcançar esse fim, sabes que basta colares-te mais fortemente aos flancos do homem. Podes fazê-lo, sem inconveniente para o pudor, pois ambos estais casados há muito tempo.
Quanto a mim, se me é permitido acrescentar algumas palavras a este hino de glorificação, direi que fiz construir uma fossa, de quarenta léguas quadradas, e de uma profundidade relativa. É aí que jaz, na sua virgindade imunda, uma mina viva de piolhos. Ela enche os baixios da fossa e serpenteia depois, em largas veias densas, em todas as direcções. Eis como construí esta mina artificial. Arranquei um piolho fêmea dos cabelos da humanidade. Viram-me deitar-me com ele durante três noites consecutivas, e lancei-o na fossa. A fecundação humana, que seria nula noutros casos semelhantes, foi aceite, desta vez, pela fatalidade; e, ao cabo de alguns dias, milhares de monstros, rastejando num nó compacto de matéria, nasceram à luz. Este nó hediondo tornou-se, com o tempo, cada vez mais imenso, adquirindo a propriedade líquida do mercúrio, e ramificou-se em vários ramos, que se alimentam, actualmente, devorando-se a si mesmos (a natalidade é maior que a mortalidade), sempre que não lhes atiro como pasto um bastardo recém-nascido, cuja mãe desejava a morte, ou um braço que corto a alguma jovem, durante a noite, graças ao clorofórmio. De quinze em quinze anos, as gerações de piolhos, que se nutrem do homem, diminuem de maneira notável e prevêem elas mesmas, infalivelmente, a época próxima da sua completa destruição. Pois o homem, mais inteligente que o seu inimigo, consegue vencê-lo. Então, com uma pá infernal que aumenta as minhas forças, extraio dessa mina inesgotável blocos de piolhos, grandes como montanhas, parto-os a golpes de machado e transporto-os, nas noites profundas, pelas artérias das cidades. Aí, ao contacto da temperatura humana, dissolvem-se como nos primeiros dias da sua formação nas galerias tortuosas da mina subterrânea, cavam um leito no cascalho e espalham-se em riachos pelas habitações, como espíritos nocivos. O cão da casa ladra surdamente, pois parece-lhe que uma legião de seres desconhecidos perfura os poros das paredes e traz o terror ao leito do sono. Talvez não tenhais deixado de ouvir, ao menos uma vez na vossa vida, esses latidos dolorosos e prolongados. Com os seus olhos impotentes, ele tenta perscrutar a escuridão da noite; pois o seu cérebro de cão não compreende isso. Esse zumbido irrita-o, e ele sente que está traído. Milhões de inimigos abatem-se assim sobre cada cidade, como nuvens de gafanhotos. Cá estão eles por quinze anos. Combaterão o homem, fazendo-lhe feridas ardentes. Após esse período, enviarei outros. Quando trituro os blocos de matéria animada, pode acontecer que um fragmento seja mais denso que outro. Os seus átomos esforçam-se com raiva para separar a sua aglomeração e ir atormentar a humanidade; mas a coesão resiste na sua dureza. Por uma convulsão suprema, geram um esforço tal que a pedra, não podendo dispersar os seus princípios vivos, lança-se por si mesma até ao alto dos ares, como por efeito da pólvora, e cai, enterrando-se solidamente no solo. Por vezes, o camponês sonhador avista um aerólito cortar verticalmente o espaço, dirigindo-se, para baixo, a um campo de milho. Ele não sabe de onde vem a pedra. Tendes agora, clara e sucinta, a explicação do fenómeno.
Se a terra fosse coberta de piolhos, como de grãos de areia o litoral do mar, a raça humana seria aniquilada, presa de dores terríveis. Que espectáculo! Eu, com asas de anjo, imóvel nos ares, a contemplá-lo.
Estrofe 10
Ó matemáticas severas, não vos esqueci, desde que as vossas sábias lições, mais doces que o mel, se filtraram no meu coração, como uma onda refrescante. Aspirava instintivamente, desde o berço, a beber da vossa fonte, mais antiga que o sol, e ainda continuo a pisar o adro sagrado do vosso templo solene, eu, o mais fiel dos vossos iniciados. Havia algo de vago no meu espírito, um não sei quê espesso como fumo; mas soube franquear religiosamente os degraus que levam ao vosso altar, e vós expulsastes esse véu obscuro, como o vento afasta o tabuleiro de xadrez. Colocastes, em seu lugar, uma frieza excessiva, uma prudência consumada e uma lógica implacável. Com a ajuda do vosso leite fortificante, a minha inteligência desenvolveu-se rapidamente e tomou proporções imensas, no meio dessa claridade arrebatadora que ofereceis, com prodigalidade, àqueles que vos amam com um amor sincero. Aritmética! Álgebra! Geometria! Trindade grandiosa! Triângulo luminoso! Aquele que não vos conheceu é um insensato! Mereceria a prova dos maiores suplícios; pois há desprezo cego na sua despreocupação ignorante; mas aquele que vos conhece e aprecia não quer mais nada dos bens da terra; contenta-se com as vossas fruições mágicas; e, levado nas vossas asas sombrias, só deseja elevar-se, num voo leve, construindo uma hélice ascendente, rumo à abóbada esférica dos céus. A terra só lhe mostra ilusões e fantasmagorias morais; mas vós, ó matemáticas concisas, pelo encadeamento rigoroso das vossas proposições tenazes e pela constância das vossas leis de ferro, fazeis brilhar, aos olhos deslumbrados, um reflexo poderoso dessa verdade suprema cuja marca se nota na ordem do universo.
Mas a ordem que vos cerca, representada sobretudo pela regularidade perfeita do quadrado, amigo de Pitágoras, é ainda maior; pois o Todo-Poderoso revelou-se completamente, ele e os seus atributos, nesse trabalho memorável que consistiu em fazer surgir, das entranhas do caos, os vossos tesouros de teoremas e as vossas magníficas esplendores. Nas épocas antigas e nos tempos modernos, mais de uma grande imaginação humana viu o seu génio, aterrorizado, ao contemplar as vossas figuras simbólicas traçadas sobre o papel ardente, como inúmeros sinais misteriosos, vivos de um sopro latente, que o vulgo profano não compreende e que eram apenas a revelação fulgurante de axiomas e hieróglifos eternos, que existiram antes do universo e que se manterão após ele. Ela pergunta-se, inclinada sobre o precipício de um ponto de interrogação fatal, como é possível que as matemáticas contenham tanta grandeza imponente e tanta verdade incontestável, enquanto, se as compara ao homem, só encontra neste último falso orgulho e mentira. Então, esse espírito superior, entristecido, a quem a nobre familiaridade dos vossos conselhos faz sentir ainda mais a pequenez da humanidade e a sua incomparável loucura, mergulha a cabeça, embranquecida, numa mão descarnada e permanece absorto em meditações sobrenaturais. Inclina os joelhos diante de vós, e a sua veneração presta homenagem ao vosso rosto divino, como à própria imagem do Todo-Poderoso.
Na minha infância, aparecestes-me, numa noite de maio, aos raios da lua, numa pradaria verdejante, às margens de um riacho límpido, todas três iguais em graça e pudor, todas três cheias de majestade como rainhas. Avançastes alguns passos na minha direcção, com a vossa longa veste, flutuante como um vapor, e atraístes-me para os vossos seios altivos, como a um filho abençoado. Então, corri com avidez, as minhas mãos crispadas na vossa garganta branca. Alimentei-me, com gratidão, da vossa maná fecunda, e senti que a humanidade crescia em mim e se tornava melhor. Desde esse tempo, ó deusas rivais, não vos abandonei. Desde esse tempo, quantos projectos enérgicos, quantas simpatias, que eu acreditava ter gravado nas páginas do meu coração, como em mármore, não foram lentamente apagados, da minha razão desiludida, as suas linhas configurativas, como a aurora nascente apaga as sombras da noite! Desde esse tempo, vi a morte, com a intenção, visível a olho nu, de povoar os túmulos, devastar os campos de batalha, fertilizados pelo sangue humano, e fazer crescer flores matinais sobre os ossos fúnebres. Desde esse tempo, assisti às revoluções do nosso globo; os terramotos, os vulcões, com a sua lava incandescente, o simum do deserto e os naufrágios da tempestade tiveram a minha presença como espectador impassível. Desde esse tempo, vi várias gerações humanas erguer, de manhã, as suas asas e os seus olhos para o espaço, com a alegria inexperiente da crisálida que saúda a sua última metamorfose, e morrer, à noite, antes do pôr-do-sol, com a cabeça curvada, como flores murchas que o assobio plangente do vento balança. Mas vós, vós permaneceis sempre as mesmas. Nenhuma mudança, nenhum ar pestilento roça os rochedos escarpados e os vales imensos da vossa identidade. As vossas pirâmides modestas durarão mais que as pirâmides do Egipto, formigueiros erguidos pela estupidez e pela escravatura. O fim dos séculos verá ainda, de pé sobre as ruínas do tempo, os vossos números cabalísticos, as vossas equações lacónicas e as vossas linhas esculturais sentados à direita vingadora do Todo-Poderoso, enquanto as estrelas se afundarão, com desespero, como trombas, na eternidade de uma noite horrível e universal, e a humanidade, fazendo caretas, pensará em acertar as suas contas com o juízo final.
Obrigado, pelos inúmeros serviços que me prestastes. Obrigado, pelas qualidades estranhas com que enriquecestes a minha inteligência. Sem vós, na minha luta contra o homem, talvez tivesse sido vencido. Sem vós, ele ter-me-ia feito rolar na areia e beijar o pó dos seus pés. Sem vós, com uma garra pérfida, ele teria lavrado a minha carne e os meus ossos. Mas eu mantive-me em guarda, como um atleta experiente. Vós destes-me a frieza que surge das vossas concepções sublimes, isentas de paixão. Servi-me dela para rejeitar com desdém as fruições efémeras da minha curta viagem e para mandar embora da minha porta as ofertas simpáticas, mas enganosas, dos meus semelhantes. Vós destes-me a prudência obstinada que se decifra a cada passo nos vossos métodos admiráveis da análise, da síntese e da dedução. Servi-me dela para desorientar as ciladas pérfidas do meu inimigo mortal, para o atacar, por minha vez, com destreza, e cravar, nas vísceras do homem, um punhal aguçado que permanecerá para sempre enterrado no seu corpo; pois é uma ferida de que ele não se erguerá. Vós destes-me a lógica, que é como a alma mesma dos vossos ensinamentos, cheios de sabedoria; com os seus silogismos, cujo labirinto complicado é ainda mais compreensível, a minha inteligência sentiu duplicar as suas forças audaciosas. Com a ajuda deste auxiliar terrível, descobri, na humanidade, nadando rumo aos baixios, diante do escolho do ódio, a maldade negra e hedionda, que apodrecia no meio de miasmas deletérios, admirando o seu umbigo. Fui o primeiro a descobrir, nas trevas das suas entranhas, esse vício nefasto, o mal! superior nela ao bem. Com essa arma envenenada que me emprestastes, fiz descer, do seu pedestal, construído pela cobardia do homem, o próprio Criador! Ele rangeu os dentes e suportou essa injúria ignominiosa; pois tinha pela frente alguém mais forte que ele. Mas deixá-lo-ei de lado, como um molho de cordas, para abaixar o meu voo…
O pensador Descartes fez, uma vez, esta reflexão: que nada de sólido fora construído sobre vós. Era uma maneira engenhosa de fazer entender que o primeiro que chegasse não poderia, de imediato, descobrir o vosso valor inestimável. Com efeito, que há de mais sólido que as três qualidades principais já nomeadas, que se erguem, entrelaçadas como uma coroa única, no cume augusto da vossa arquitectura colossal? Monumento que cresce sem cessar com descobertas quotidianas, nas vossas minas de diamante, e com explorações científicas, nos vossos soberbos domínios. Ó matemáticas santas, pudésseis vós, pelo vosso comércio perpétuo, consolar o resto dos meus dias da maldade do homem e da injustiça do Grande-Todo!
Estrofe 11
«Ó lâmpada de bico de prata, os meus olhos avistam-te nos ares, companheira da abóbada das catedrais, e procuram a razão dessa suspensão. Diz-se que as tuas luzes iluminam, durante a noite, a turba daqueles que vêm adorar o Todo-Poderoso e que mostras aos arrependidos o caminho que leva ao altar. Escuta, é bem possível; mas… precisas de prestar tais serviços àqueles a quem nada deves? Deixa mergulhadas nas trevas as colunas das basílicas; e, quando uma rajada da tempestade, sobre a qual o demónio rodopia, levado pelo espaço, penetrar, com ele, no lugar santo, espalhando o terror, em vez de lutares, corajosamente, contra a rajada pestilenta do príncipe do mal, apaga-te subitamente sob o seu sopro febril, para que ele possa, sem ser visto, escolher as suas vítimas entre os crentes ajoelhados. Se o fizeres, poderás dizer que te deverei toda a minha felicidade. Quando brilhas assim, espalhando as tuas claridades indecisas, mas suficientes, não ouso entregar-me às sugestões do meu carácter, e fico, sob o pórtico sagrado, a olhar pelo portal entreaberto aqueles que escapam à minha vingança, no seio do Senhor. Ó lâmpada poética! Tu que serias minha amiga se pudesses compreender-me, quando os meus pés pisam o basalto das igrejas, nas horas nocturnas, por que começas a brilhar de uma maneira que, confesso, me parece extraordinária? Os teus reflexos tingem-se, então, das nuances brancas da luz eléctrica; o olho não te pode fixar; e iluminas com uma chama nova e potente os menores detalhes do covil do Criador, como se estivesses possuída por uma santa cólera. E, quando me retiro após ter blasfemado, tornas-te novamente imperceptível, modesta e pálida, segura de teres cumprido um acto de justiça. Diz-me, pois; seria porque conheces os recantos do meu coração que, quando me acontece aparecer onde tu velas, te apressas a denunciar a minha presença perniciosa e a dirigir a atenção dos adoradores para o lado onde acaba de se mostrar o inimigo dos homens? Inclino-me para essa opinião; pois eu também começo a conhecer-te; e sei quem és, velha bruxa, que velas tão bem pelas mesquitas sagradas, onde o teu mestre curioso se pavoneia, como a crista de um galo. Guardiã vigilante, atribuíste-te uma missão louca. Aviso-te; da primeira vez que me designares à prudência dos meus semelhantes, pelo aumento das tuas luzes fosforescentes, como não gosto desse fenómeno óptico, que, aliás, não é mencionado em nenhum livro de física, agarrar-te-ei pela pele do teu peito, cravando as minhas garras nas escaras da tua nuca sarnenta, e lançar-te-ei ao Sena. Não pretendo que, quando não te faço nada, te comportes conscientemente de uma maneira que me seja prejudicial. Aí, permitir-te-ei brilhar tanto quanto me for agradável; aí, zombarás de mim com um sorriso inextinguível; aí, convencida da incapacidade do teu óleo criminoso, uriná-lo-ás com amargura.»
Após ter falado assim, Maldoror não sai do templo e permanece com os olhos fixos na lâmpada do lugar santo… Crê ver uma espécie de provocação na atitude dessa lâmpada, que o irrita ao mais alto grau pela sua presença inoportuna. Diz consigo que, se alguma alma está encerrada nessa lâmpada, é cobarde por não responder, com sinceridade, a um ataque leal. Bate o ar com os seus braços nervosos e desejaria que a lâmpada se transformasse num homem; fá-lo-ia passar um mau quarto de hora, promete-o a si mesmo. Mas como poderia uma lâmpada tornar-se um homem? Não é natural. Não se resigna e vai buscar, no adro da miserável pagode, uma pedra plana de gume afiado. Lança-a ao ar com força… a corrente é cortada ao meio, como a erva pela foice, e o instrumento do culto cai ao chão, espalhando o seu óleo pelas lajes… Agarra a lâmpada para a levar para fora, mas ela resiste e cresce. Parece-lhe ver asas nos seus flancos, e a parte superior toma a forma de um busto de anjo. Tudo quer elevar-se no ar para tomar o seu voo; mas ele retém-na com uma mão firme. Uma lâmpada e um anjo que formam um só corpo, eis algo que não se vê todos os dias. Reconhece a forma da lâmpada; reconhece a forma do anjo; mas não consegue separá-las no seu espírito; com efeito, na realidade, estão coladas uma na outra e formam um só corpo independente e livre; mas ele crê que alguma nuvem velou os seus olhos e lhe fez perder um pouco da excelência da sua vista. Contudo, prepara-se para a luta com coragem, pois o seu adversário não tem medo. As gentes ingénuas contam, àqueles que querem acreditar, que o portal sagrado se fechou sozinho, girando sobre os seus gonzos aflitos, para que ninguém pudesse assistir a essa luta ímpia, cujos episódios se desenrolariam no recinto do santuário violado.
O homem de manto, enquanto recebe feridas cruéis com um gládio invisível, esforça-se por aproximar da sua boca a figura do anjo; só pensa nisso, e todos os seus esforços se dirigem a esse fim. Este perde a sua energia e parece pressentir o seu destino. Já só luta debilmente, e vê-se o momento em que o seu adversário poderá beijá-lo à vontade, se for isso que deseja fazer. Pois bem, o momento chegou. Com os seus músculos, estrangula a garganta do anjo, que já não consegue respirar, e vira-lhe o rosto, pressionando-o contra o seu peito odioso. Por um instante, é tocado pelo destino que espera esse ser celeste, de quem teria feito de bom grado o seu amigo. Mas diz consigo que é o enviado do Senhor, e não pode conter a sua ira. Está feito; algo horrível vai entrar na jaula do tempo! Inclina-se e leva a língua, impregnada de saliva, a essa face angélica, que lança olhares suplicantes. Passeia a língua por algum tempo nessa face. Oh!... vede!... vede pois!... a face branca e rosada tornou-se negra como carvão! Exsuda miasmas pútridos. É a gangrena; já não há dúvida. O mal corrosivo espalha-se por todo o rosto e daí exerce as suas fúrias sobre as partes inferiores; em breve, todo o corpo é uma vasta chaga imunda. Ele próprio, aterrorizado (pois não acreditava que a sua língua contivesse um veneno de tal violência), recolhe a lâmpada e foge da igreja.
Uma vez fora, avista nos ares uma forma enegrecida, de asas queimadas, que dirige penosamente o seu voo para as regiões do céu. Olham-se os dois, enquanto o anjo sobe para as alturas serenas do bem, e ele, Maldoror, ao contrário, desce para os abismos vertiginosos do mal… Que olhar! Tudo o que a humanidade pensou durante sessenta séculos, e o que ainda pensará nos séculos seguintes, poderia caber facilmente ali, tantas coisas se disseram, nesse adeus supremo! Mas compreende-se que eram pensamentos mais elevados que os que brotam da inteligência humana; primeiro, devido aos dois personagens, e depois, devido à circunstância. Esse olhar uniu-os numa amizade eterna. Ele espanta-se que o Criador possa ter missionários de uma alma tão nobre. Por um instante, crê ter-se enganado e pergunta-se se deveria ter seguido o caminho do mal, como fez. O turbilhão passa; persevera na sua resolução; e é glorioso, segundo ele, vencer cedo ou tarde o Grande-Tudo, para reinar em seu lugar sobre o universo inteiro e sobre legiões de anjos igualmente belos. Este faz-lhe compreender, sem falar, que recuperará a sua forma primitiva à medida que subir para o céu; deixa cair uma lágrima, que refresca a testa daquele que lhe deu a gangrena; e desaparece aos poucos, como um abutre, elevando-se entre as nuvens.
O culpado olha para a lâmpada, causa do que precedes. Corre como louco pelas ruas, dirige-se ao Sena e lança a lâmpada por cima do parapeito. Ela rodopia por alguns instantes e afunda-se definitivamente nas águas turvas. Desde esse dia, todas as noites, ao cair da noite, vê-se uma lâmpada brilhante que surge e se mantém, graciosamente, na superfície do rio, à altura da ponte Napoleão, trazendo, em vez de asa, duas pequenas asas de anjo. Avança lentamente sobre as águas, passa sob os arcos da ponte da Gare e da ponte de Austerlitz, e continua o seu sulco silencioso pelo Sena, até à ponte de l’Alma. Uma vez nesse ponto, sobe com facilidade o curso do rio e regressa, ao fim de quatro horas, ao seu ponto de partida. Assim prossegue, durante toda a noite. As suas luzes, brancas como a luz eléctrica, apagam os bicos de gás que ladeiam as duas margens, entre os quais ela avança como uma rainha, solitária, impenetrável, com um sorriso inextinguível, sem que o seu óleo se espalhe com amargura. No início, os barcos perseguiam-na; mas ela frustrava esses esforços vãos, escapava a todas as caçadas, mergulhando, como uma coquete, e reaparecia, mais adiante, a grande distância. Agora, os marinheiros supersticiosos, quando a vêem, remam na direcção oposta e seguram as suas canções.
Quando passais por uma ponte, durante a noite, prestai bem atenção; estais certos de ver a lâmpada brilhar, aqui ou ali; mas diz-se que ela não se mostra a todos. Quando um ser humano que tem algo na consciência passa pelas pontes, ela apaga subitamente os seus reflexos, e o transeunte, aterrorizado, procura em vão, com um olhar desesperado, a superfície e o lodo do rio. Sabe o que isso significa. Gostaria de crer que viu a luz celeste; mas diz consigo que a luz vinha da frente dos barcos ou do reflexo dos bicos de gás; e tem razão… Sabe que essa desaparição é por sua causa; e, mergulhado em tristes reflexões, apressa o passo para chegar à sua morada. Então, a lâmpada de bico de prata reaparece à superfície e prossegue a sua marcha, através de arabescos elegantes e caprichosos.
Estrofe 12
Escutai os pensamentos da minha infância, quando despertava, humanos, com a vara vermelha:
«Acabo de acordar; mas o meu pensamento ainda está entorpecido. Todas as manhãs, sinto um peso na cabeça. É raro encontrar repouso na noite; pois sonhos horríveis atormentam-me quando consigo adormecer. Durante o dia, o meu pensamento cansa-se em meditações bizarras, enquanto os meus olhos vagueiam ao acaso pelo espaço; e, à noite, não consigo dormir. Quando devo então dormir? Contudo, a natureza precisa de reclamar os seus direitos. Como a desdenho, ela torna a minha face pálida e faz brilhar os meus olhos com a chama acre da febre. De resto, nada me agradaria mais do que não esgotar o meu espírito a reflectir continuamente; mas, mesmo que não o quisesse, os meus sentimentos consternados arrastam-me invencivelmente para essa vertente. Percebi que as outras crianças são como eu; mas estão ainda mais pálidas, e as suas sobrancelhas estão franzidas, como as dos homens, nossos irmãos mais velhos. Ó Criador do universo, não deixarei, esta manhã, de te oferecer o incenso da minha prece infantil. Por vezes esqueço-me dela, e notei que, nesses dias, me sinto mais feliz que o habitual; o meu peito expande-se, livre de qualquer constrangimento, e respiro, mais à vontade, o ar perfumado dos campos; enquanto, quando cumpro o penoso dever, ordenado pelos meus pais, de te dirigir diariamente um cântico de louvores, acompanhado do tédio inseparável que me causa a sua laboriosa invenção, então fico triste e irritado o resto do dia, porque não me parece lógico nem natural dizer o que não penso, e busco o recuo das imensas solidões. Se lhes peço a explicação deste estado estranho da minha alma, não me respondem. Gostaria de te amar e adorar; mas és demasiado poderoso, e há temor nos meus hinos. Se, com uma única manifestação do teu pensamento, podes destruir ou criar mundos, as minhas frágeis preces não te serão úteis; se, quando te apraz, envias o cólera para devastar as cidades, ou a morte para carregar nas suas garras, sem distinção, as quatro idades da vida, não quero ligar-me a um amigo tão temível. Não é que o ódio conduza o fio dos meus raciocínios; mas temo, pelo contrário, o teu próprio ódio, que, por um capricho, pode brotar do teu coração e tornar-se imenso, como a envergadura do condor dos Andes. Os teus divertimentos equívocos estão fora do meu alcance, e eu seria provavelmente a primeira vítima. És o Todo-Poderoso; não te contesto esse título, pois só tu tens o direito de o carregar, e os teus desejos, de consequências funestas ou felizes, só têm limite em ti mesmo. É precisamente por isso que me seria doloroso caminhar ao lado da tua cruel túnica de safira, não como teu escravo, mas podendo sê-lo a qualquer momento. É verdade que, quando desces em ti mesmo para perscrutar a tua conduta soberana, se o espectro de uma injustiça passada, cometida contra esta infeliz humanidade, que sempre te obedeceu como teu amigo mais fiel, erguer diante de ti as vértebras imóveis de uma espinha dorsal vingadora, o teu olhar alucinado deixa cair a lágrima assustada do remorso tardio, e então, com os cabelos eriçados, crês, tu mesmo, tomar, sinceramente, a resolução de suspender, para sempre, nas silvas do nada, os jogos inconcebíveis da tua imaginação de tigre, que seria burlesca, se não fosse lamentável; mas sei também que a constância não fixou, nos teus ossos, como uma medula tenaz, o arpão da sua morada eterna, e que bastante vezes tu e os teus pensamentos, cobertos pela lepra negra do erro, recaís no lago funéreo das sombrias maldições. Quero crer que estas são inconscientes (embora não deixem de conter o seu veneno fatal), e que o mal e o bem, unidos, se derramam em saltos impetuosos do teu peito régio gangrenado, como a torrente da rocha, pelo encanto secreto de uma força cega; mas nada me dá essa prova. Vi demasiadas vezes os teus dentes imundos rangerem de raiva, e a tua face augusta, coberta pela espuma dos tempos, enrubescer, como um carvão ardente, por causa de alguma futilidade microscópica que os homens cometeram, para poder deter-me, por mais tempo, diante do poste indicador dessa hipótese ingénua. Cada dia, de mãos juntas, elevarei para ti os acentos da minha humilde prece, pois assim tem de ser; mas suplico-te, que a tua providência não pense em mim; deixa-me de lado, como o verme que rasteja sob a terra. Saibas que eu preferiria alimentar-me avidamente das plantas marinhas de ilhas desconhecidas e selvagens, que as ondas tropicais arrastam, no meio desses lugares, no seu seio espumoso, a saber que me observas e que cravas, na minha consciência, o teu bisturi que ri. Ela acaba de te revelar a totalidade dos meus pensamentos, e espero que a tua prudência aplauda facilmente o bom senso de que guardam a marca indelével. Exceptuando estas reservas feitas sobre o género de relações mais ou menos íntimas que devo manter contigo, a minha boca está pronta, a qualquer hora do dia, a exalar, como um sopro artificial, o fluxo de mentiras que a tua glória exige severamente de cada humano, logo que a aurora se ergue azulada, buscando a luz nos refolhos de cetim do crepúsculo, como eu busco a bondade, excitado pelo amor do bem. Os meus anos não são muitos, e, no entanto, já sinto que a bondade não passa de um conjunto de sílabas sonoras; não a encontrei em parte alguma. Deixas transparecer demasiado o teu carácter; deverias escondê-lo com mais destreza. De resto, talvez eu esteja enganado e tu faças isso de propósito; pois sabes melhor que ninguém como deves conduzir-te. Os homens, esses, põem a sua glória em imitar-te; é por isso que a bondade santa não reconhece o seu tabernáculo nos olhos ferozes deles: tal pai, tal filho. Seja o que for que se deva pensar da tua inteligência, falo dela apenas como um crítico imparcial. Nada me agradaria mais do que ter sido levado ao erro. Não desejo mostrar-te o ódio que te tenho e que cultivo com amor, como uma filha querida; pois é melhor escondê-lo dos teus olhos e tomar apenas, diante de ti, a aparência de um censor severo, encarregado de controlar os teus actos impuros. Assim, cessarás todo o comércio activo com ela, esquecê-la-ás e destruirás completamente essa pulga ávida que te rói o fígado. Prefiro, antes, fazer-te ouvir palavras de devaneio e suavidade… Sim, foste tu quem criou o mundo e tudo o que ele contém. És perfeito. Nenhuma virtude te falta. És muito poderoso, todos o sabem. Que o universo inteiro entoe, a cada hora do tempo, o teu cântico eterno! Os pássaros bendizem-te, alçando voo pela campina. As estrelas pertencem-te… Assim seja!»
Após estes começos, admirai-vos de me encontrar tal como sou!
Estrofe 13
Eu procurava uma alma que me fosse semelhante, e não a conseguia encontrar. Revirei todos os recantos da terra; a minha perseverança era inútil. Contudo, não podia ficar só. Era preciso alguém que aprovasse o meu carácter; era preciso alguém que tivesse as mesmas ideias que eu. Era de manhã; o sol erguia-se no horizonte, em toda a sua magnificência, e eis que, aos meus olhos, se ergue também um jovem, cuja presença gerava flores ao seu redor. Ele aproximou-se de mim e, estendendo-me a mão:
«Vim até ti, tu que me procuras. Bendigamos este dia feliz.»
Mas eu:
«Vai-te embora; não te chamei; não preciso da tua amizade…»
Era de noite; a escuridão começava a estender o negrume do seu véu sobre a natureza. Uma bela mulher, que eu mal distinguia, espalhava também sobre mim a sua influência encantadora e olhava-me com compaixão; contudo, não ousava falar-me. Eu disse:
«Aproxima-te de mim, para que eu distinga claramente os traços do teu rosto; pois a luz das estrelas não é forte o suficiente para os iluminar a esta distância.»
Então, com um passo modesto e os olhos baixos, ela pisou a erva do relvado, dirigindo-se para o meu lado. Logo que a vi:
«Vejo que a bondade e a justiça fizeram morada no teu coração: não poderíamos viver juntos. Agora, admiras a minha beleza, que já transtornou mais de uma alma; mas, cedo ou tarde, arrepender-te-ias de me teres consagrado o teu amor; pois não conheces a minha alma. Não que eu te seja algum dia infiel: aquela que se entrega a mim com tanto abandono e confiança, com tanta confiança e abandono, a ela me entrego; mas grava isto na tua cabeça, para nunca o esqueceres: os lobos e os cordeiros não se olham com olhos ternos.»
O que me faltava, então, a mim, que rejeitava, com tanto desgosto, o que havia de mais belo na humanidade! O que me faltava, eu não saberia dizer. Ainda não estava habituado a prestar contas rigorosas dos fenómenos do meu espírito, por meio dos métodos que a filosofia recomenda. Sentei-me numa rocha, junto ao mar. Um navio acabara de abrir todas as velas para se afastar daquele lugar: um ponto imperceptível surgira no horizonte e aproximava-se aos poucos, empurrado pela rajada, crescendo rapidamente. A tempestade ia começar os seus ataques, e já o céu se obscurecia, tornando-se de um negro quase tão hediondo quanto o coração do homem. O navio, que era um grande vaso de guerra, acabara de lançar todas as suas âncoras, para não ser arrastado contra os rochedos da costa. O vento assobiava com fúria dos quatro pontos cardinais e fazia as velas em pedaços. Os trovões rebentavam entre os relâmpagos e não conseguiam superar o ruído das lamentações que se ouviam na casa sem alicerces, sepulcro movediço. O balanço daquelas massas aquosas não lograra romper as correntes das âncoras; mas as suas sacudidelas tinham aberto uma brecha nos flancos do navio. Brecha enorme; pois as bombas não bastavam para expelir os pacotes de água salgada que vinham, espumando, abater-se sobre o convés como montanhas. O navio em apuros disparava tiros de canhão de alarme; mas afundava-se com lentidão… com majestade.
Quem não viu um navio afundar-se no meio de um furacão, entre a intermitência dos relâmpagos e a escuridão mais profunda, enquanto os que nele estão se encontram esmagados por esse desespero que conheceis, esse não conhece os acidentes da vida. Por fim, escapou um grito universal de imensa dor dos flancos do navio, enquanto o mar redobrava os seus ataques temíveis. Era o grito que o abandono das forças humanas arrancara. Cada um envolvia-se no manto da resignação e entregava o seu destino às mãos de Deus. Amontoavam-se como um rebanho de ovelhas. O navio em apuros disparava tiros de canhão de alarme; mas afundava-se com lentidão… com majestade. Tinham accionado as bombas durante todo o dia. Esforços inúteis. A noite chegara, densa, implacável, para coroar esse espectáculo gracioso. Cada um dizia consigo que, uma vez na água, não poderia mais respirar; pois, por mais que recorresse à sua memória, não se reconhecia nenhum peixe como antepassado; mas exortava-se a reter o fôlego o máximo possível, para prolongar a vida por dois ou três segundos; era essa a ironia vingativa que queria dirigir à morte… O navio em apuros disparava tiros de canhão de alarme; mas afundava-se com lentidão… com majestade.
Ele não sabe que o navio, ao afundar-se, provoca uma poderosa convolução das ondas sobre si mesmas; que o lodo turvo se misturou às águas agitadas, e que uma força vinda de baixo, contragolpe da tempestade que exerce os seus estragos acima, imprime ao elemento movimentos bruscos e nervosos. Assim, apesar da reserva de sangue-frio que recolhe de antemão, o futuro afogado, após uma reflexão mais ampla, deverá sentir-se feliz se prolongar a sua vida, nos turbilhões do abismo, por metade de uma respiração normal, para fazer boa medida. Será-lhe, pois, impossível zombar da morte, o seu desejo supremo. O navio em apuros disparava tiros de canhão de alarme; mas afundava-se com lentidão… com majestade. É um erro. Já não dispara tiros de canhão, já não se afunda. A casca de noz submergiu-se completamente. Ó céu! Como se pode viver após sentir tantas volúpias! Acabava de me ser dado assistir às agonias mortais de vários dos meus semelhantes. Minuto a minuto, seguia os episódios das suas angústias. Ora o mugido de alguma velha, enlouquecida de medo, sobressaía no mercado. Ora o único ganido de uma criança de peito impedia de ouvir o comando das manobras. O navio estava demasiado longe para perceber distintamente os gemidos que a rajada me trazia; mas eu aproximava-o pela vontade, e a ilusão óptica era completa. A cada quarto de hora, quando uma rajada de vento, mais forte que as outras, emitindo os seus tons lúgubres através do grito dos petréis assustados, desarticulava o navio num estalo longitudinal e aumentava os lamentos daqueles que iam ser oferecidos em holocausto à morte, eu cravava na face a ponta aguçada de um ferro e pensava secretamente:
«Sofrem mais do que eu!»
Tinha, pelo menos, assim, um termo de comparação. Do litoral, apostrofava-os, lançando-lhes imprecações e ameaças. Parecia-me que deviam ouvir-me! Parecia-me que o meu ódio e as minhas palavras, ultrapassando a distância, anulavam as leis físicas do som e chegavam, distintas, aos seus ouvidos, ensurdecidos pelos rugidos do oceano enfurecido! Parecia-me que deviam pensar em mim e exalar a sua vingança numa raiva impotente! De vez em quando, lançava os olhos às cidades, adormecidas em terra firme; e, vendo que ninguém suspeitava que um navio ia afundar-se, a poucos quilómetros da costa, com uma coroa de aves de rapina e um pedestal de gigantes aquáticos de ventre vazio, recuperava ânimo, e a esperança voltava-me: estava, pois, certo da sua perdição! Não podiam escapar! Por excesso de precaução, fora buscar o meu fuzil de dois canos, para que, se algum náufrago se tentasse aproximar dos rochedos a nado, para fugir a uma morte iminente, uma bala no ombro lhe estilhaçasse o braço e o impedisse de cumprir o seu intento. No momento mais furioso da tempestade, vi, sobrenadando nas águas com esforços desesperados, uma cabeça enérgica, de cabelos eriçados. Ele engolia litros de água e afundava-se no abismo, baloiçado como uma rolha. Mas logo reaparecia, os cabelos escorrendo; e, fixando o olhar na costa, parecia desafiar a morte. Era admirável de sangue-frio. Uma larga ferida sangrenta, causada por alguma ponta de recife oculto, marcava o seu rosto intrépido e nobre. Não devia ter mais de dezasseis anos; pois, mal se via, através dos relâmpagos que iluminavam a noite, o buço de pêssego na sua boca. E agora estava a apenas duzentos metros do penhasco; e eu observava-o facilmente. Que coragem! Que espírito indomável! Como a fixidez da sua cabeça parecia zombar do destino, enquanto fendia vigorosamente a onda, cujos sulcos se abriam com dificuldade diante dele!... Eu decidira de antemão. Devia a mim mesmo manter a minha promessa: a última hora soara para todos, nenhum escaparia. Era essa a minha resolução; nada a mudaria… Um som seco fez-se ouvir, e a cabeça afundou-se logo, para não mais reaparecer.
Não tirei desse assassinato tanto prazer quanto se poderia pensar; e era precisamente porque estava farto de matar sempre que o fazia agora por simples hábito, de que não se pode prescindir, mas que só dá uma satisfação leve. O sentido está embotado, endurecido. Que volúpia sentir na morte desse ser humano, quando havia mais de uma centena que se ofereceriam a mim, em espectáculo, na sua última luta contra as ondas, uma vez o navio submerso? A essa morte, eu nem sequer tinha o atractivo do perigo; pois a justiça humana, embalada pelo furacão daquela noite horrível, dormia nas casas, a poucos passos de mim. Hoje, que os anos pesam sobre o meu corpo, digo-o com sinceridade, como uma verdade suprema e solene: eu não era tão cruel como depois se contou entre os homens; mas, por vezes, a sua maldade exercia os seus estragos persistentes durante anos inteiros. Então, eu não conhecia limites para a minha fúria; tomavam-me acessos de crueldade, e tornava-me terrível para quem se aproximasse dos meus olhos alucinados, se ao menos pertencesse à minha raça. Se fosse um cavalo ou um cão, deixava-o passar: ouvistes o que acabo de dizer? Infelizmente, na noite dessa tempestade, eu estava num desses acessos, a minha razão tinha-se esvaído (pois, normalmente, eu era igualmente cruel, mas mais prudente); e tudo o que caísse, dessa vez, nas minhas mãos, devia perecer; não pretendo desculpar-me dos meus erros. A culpa não é toda dos meus semelhantes. Apenas constato o que é, à espera do juízo final que me faz coçar a nuca de antemão… Que me importa o juízo final! A minha razão nunca se esvai, como disse para vos enganar. E, quando cometo um crime, sei o que faço: não queria fazer outra coisa!
De pé sobre a rocha, enquanto o furacão fustigava os meus cabelos e o meu manto, eu espiava em êxtase essa força da tempestade, obstinando-se contra um navio, sob um céu sem estrelas. Segui, numa atitude triunfante, todos os episódios desse drama, desde o instante em que o navio lançou as suas âncoras até ao momento em que se afundou, hábito fatal que arrastou, para as entranhas do mar, aqueles que se haviam vestido dele como de um manto. Mas aproximava-se o instante em que eu mesmo me misturaria como actor a essas cenas da natureza transtornada. Quando o lugar onde o navio sustentara o combate mostrou claramente que este fora passar o resto dos seus dias no rés-do-chão do mar, então aqueles que tinham sido levados pelas ondas reapareceram em parte à superfície. Abraçaram-se aos pares, a três; era o meio de não salvar a vida; pois os seus movimentos tornavam-se atrapalhados, e afundavam-se como jarros furados… Que é essa tropa de monstros marinhos que fende as ondas com velocidade? São seis; as suas barbatanas são vigorosas e abrem passagem através das vagas revoltas. De todos esses seres humanos, que agitam os quatro membros nesse continente pouco firme, os tubarões logo fazem uma omelete sem ovos e dividem-na segundo a lei do mais forte. O sangue mistura-se às águas, e as águas misturam-se ao sangue. Os seus olhos ferozes iluminam suficientemente a cena do carnage…
Mas que é ainda esse tumulto das águas, ali ao longe, no horizonte? Parece uma tromba que se aproxima. Que remadas! Percebo o que é. Uma fêmea gigante de tubarão vem tomar parte no patê de fígado de pato e comer um cozido frio. Está furiosa; pois chega esfomeada. Uma briga rola entre ela e os tubarões, disputando os poucos membros palpitantes que flutuam aqui e ali, sem dizer nada, na superfície do creme vermelho. À direita, à esquerda, ela dá dentadas que causam feridas mortais. Mas ainda há três tubarões vivos à volta dela, e ela tem que girar pra todo lado pra desmontar as manobras deles. Com uma emoção crescente, que eu nunca tinha sentido antes, o espectador, na costa, segue essa batalha naval dum tipo novo. Tem os olhos cravados nessa fêmea de tubarão valente, de dentes tão fortes. Não hesita mais, encosta o fuzil no ombro e, com a precisão de sempre, acerta a segunda bala na orelha dum dos tubarões, bem quando ele aparecia em cima duma onda. Sobram dois tubarões que só ficam mais teimosos. Do alto da rocha, o homem de saliva salgada se joga no mar e nada pro tapete colorido, segurando na mão essa faca de aço que nunca larga. Agora, cada tubarão tem um inimigo pra encarar. Ele avança pro adversário cansado e, sem pressa, enfia a lâmina afiada na barriga dele. A fortaleza móvel se livra fácil do último oponente…
Estão frente a frente o nadador e a fêmea de tubarão, salva por ele. Olharam-se nos olhos por uns minutos; e cada um ficou bobo de ver tanta ferocidade no olhar do outro. Nadam em círculos, não se perdem de vista, e dizem pra si mesmos:
«Tava enganado até agora; esse aí é mais mau que eu.»
Aí, de comum acordo, entre duas águas, deslizaram um pro outro, com uma admiração mútua, a fêmea de tubarão abrindo a água com as barbatanas, Maldoror batendo a onda com os braços; e seguraram o fôlego, numa veneração danada, cada um querendo ver, pela primeira vez, o seu retrato vivo. Chegando a três metros de distância, sem esforço nenhum, caíram de repente um contra o outro, que nem dois ímãs, e se abraçaram com dignidade e gratidão, num abraço tão terno quanto o dum irmão ou duma irmã. Os desejos carnais vieram logo atrás dessa prova de amizade. Duas coxas nervosas se grudaram firme na pele viscosa do monstro, que nem duas sanguessugas; e os braços e as barbatanas se enrolaram no corpo do objeto amado que cercavam com amor, enquanto as gargantas e os peitos logo viraram uma massa glauca com cheiro de alga; no meio da tempestade que continuava a rolar; à luz dos relâmpagos; tendo como cama de núpcias a onda espumosa, levados por uma corrente submarina como num berço, e rolando sobre si mesmos pras profundezas desconhecidas do abismo, eles se juntaram num acasalamento longo, casto e nojento!... Enfim, eu tinha achado alguém que parecia comigo!... De agora em diante, eu não tava mais sozinho na vida!... Ela tinha as mesmas ideias que eu!... Eu tava na frente do meu primeiro amor!
Estrofe 14
O Sena arrasta um corpo humano. Nessas circunstâncias, assume ares solenes. O cadáver inchado sustenta-se nas águas; desaparece sob o arco de uma ponte; mas, mais adiante, volta a aparecer, girando lentamente sobre si mesmo, como uma roda de moinho, e afundando-se por intervalos. Um mestre de barco, com a ajuda de uma vara, agarra-o ao passar e trá-lo para a margem. Antes de transportar o corpo para a Morgue, deixam-no algum tempo na margem, para tentar trazê-lo de volta à vida. A multidão compacta reúne-se em torno do corpo. Aqueles que não conseguem ver, por estarem atrás, empurram, tanto quanto podem, os que estão à frente. Cada um diz consigo:
«Não seria eu a afogar-me.»
Compadecem-se do jovem que se suicidou; admiram-no; mas não o imitam. E, no entanto, ele achou muito natural dar-se a morte, não julgando nada na terra capaz de o satisfazer, e aspirando a algo mais alto. O seu rosto é distinto, e as suas roupas são ricas. Terá ainda dezassete anos? É morrer jovem! A multidão paralisada continua a lançar sobre ele os seus olhos imóveis… Anoitece. Cada um retira-se em silêncio. Ninguém ousa virar o afogado, para o fazer expelir a água que enche o seu corpo. Temeram parecer sensíveis, e ninguém se mexeu, entrincheirado na gola da sua camisa. Um vai-se embora, assobiando agudamente uma tirolesa absurda; outro faz estalar os dedos como castanholas…
Atormentado pelo seu pensamento sombrio, Maldoror, no seu cavalo, passa por esse lugar com a velocidade de um relâmpago. Avista o afogado; isso basta. Logo detém o seu corcel e desce do estribo. Levanta o jovem sem repulsa e faz com que expila água em abundância. À ideia de que esse corpo inerte poderia reviver sob a sua mão, sente o coração saltar, sob essa excelente impressão, e redobra de coragem. Esforços vãos! Esforços vãos, disse eu, e é verdade. O cadáver permanece inerte e deixa-se virar em todos os sentidos. Ele esfrega as têmporas; fricciona este membro, aquele; sopra durante uma hora na boca, pressionando os seus lábios contra os do desconhecido. Parece-lhe finalmente sentir, sob a mão aplicada ao peito, um leve batimento. O afogado vive! Nesse momento supremo, pôde-se notar que várias rugas desapareceram da testa do cavaleiro, rejuvenescendo-o dez anos. Mas, ai! As rugas voltarão, talvez amanhã, talvez assim que se afaste das margens do Sena.
Entretanto, o afogado abre olhos baços e, com um sorriso pálido, agradece ao seu benfeitor; mas ainda está fraco e não consegue fazer nenhum movimento. Salvar a vida de alguém, que belo gesto! E como essa acção redime de faltas! O homem de lábios de bronze, até então ocupado em arrancá-lo da morte, olha o jovem com mais atenção, e os seus traços não lhe parecem desconhecidos. Diz consigo que entre o asfixiado, de cabelos loiros, e Holzer, não há muita diferença. Vede como se abraçam com efusão! Não importa! O homem de pupila de jaspe insiste em manter a aparência de um papel severo. Sem dizer nada, pega o seu amigo, coloca-o na garupa, e o corcel parte a galope.
Ó tu, Holzer, que te julgavas tão razoável e forte, não viste, pelo teu próprio exemplo, como é difícil, num acesso de desespero, conservar o sangue-frio de que te vanglorias? Espero que não me causes mais uma aflição destas, e eu, por meu lado, prometi-te nunca atentar contra a minha vida.
Estrofe 15
Há horas na vida em que o homem, de cabeleira piolhenta, lança, com o olhar fixo, olhares ferozes sobre as membranas verdes do espaço; pois parece-lhe ouvir, diante de si, as vaias irónicas de um fantasma. Ele cambaleia e curva a cabeça: o que ouviu foi a voz da consciência. Então, precipita-se para fora de casa, com a velocidade de um louco, toma a primeira direcção que se oferece ao seu estupor e devora as planícies rugosas do campo. Mas o fantasma amarelo não o perde de vista e persegue-o com igual rapidez. Por vezes, numa noite de tempestade, enquanto legiões de polvos alados, que de longe parecem corvos, planam acima das nuvens, dirigindo-se com um remo rígido às cidades dos homens, com a missão de os advertir para mudarem de conduta, o seixo, de olho sombrio, vê dois seres passarem ao clarão do relâmpago, um atrás do outro; e, enxugando uma furtiva lágrima de compaixão, que escorre da sua pálpebra gelada, exclama:
«Certamente, ele merece-o; e é apenas justiça.»
Após dizer isto, retoma a sua atitude feroz e continua a observar, com um tremor nervoso, a caça ao homem, e as grandes lábios da vagina de sombra, de onde fluem, incessantemente, como um rio, imensos espermatozóides tenebrosos que alçam voo no éter lúgubre, ocultando, com o vasto desdobramento das suas asas de morcego, toda a natureza, e as legiões solitárias de polvos, tornadas taciturnas ao verem essas fulgurações mudas e inexprimíveis. Mas, entretanto, a corrida de obstáculos prossegue entre os dois corredores infatigáveis, e o fantasma lança pela boca torrentes de fogo sobre o dorso calcinado da antilope humana. Se, no cumprimento desse dever, encontra pelo caminho a piedade que lhe quer barrar a passagem, cede com relutância às suas súplicas e deixa o homem escapar. O fantasma faz estalar a língua, como que a dizer a si mesmo que vai cessar a perseguição, e regressa ao seu covil, até novas ordens. A sua voz de condenado ecoa até às camadas mais distantes do espaço; e, quando o seu urro medonho penetra no coração humano, este preferiria, diz-se, ter a morte como mãe a ter o remorso como filho.
Ele enfia a cabeça até aos ombros nas complicações terrosas de um buraco; mas a consciência volatiliza essa artimanha de avestruz. A escavação evapora-se, gota de éter; a luz aparece, com o seu cortejo de raios, como um bando de maçaricos que se abate sobre as lavandas; e o homem encontra-se face a si mesmo, de olhos abertos e lívidos. Eu vi-o dirigir-se para o lado do mar, subir a um promontório recortado e fustigado pela sobrancelha da espuma; e, como uma flecha, lançar-se nas ondas. Eis o milagre: o cadáver reaparecia, no dia seguinte, à superfície do oceano, que devolvia à costa esse destroço de carne. O homem libertava-se do molde que o seu corpo cavara na areia, espremia a água dos cabelos molhados e retomava, com a testa muda e curvada, o caminho da vida. A consciência julga severamente os nossos pensamentos e actos mais secretos, e não se engana. Como muitas vezes é impotente para prevenir o mal, não cessa de caçar o homem como um raposo, sobretudo na escuridão. Olhos vingadores, que a ciência ignorante chama meteoros, espalham uma chama lívida, passam rolando sobre si mesmos e articulam palavras de mistério… que ele compreende! Então, o seu leito é sacudido pelas convulsões do seu corpo, esmagado sob o peso da insónia, e ele ouve a respiração sinistra dos rumores vagos da noite. O próprio anjo do sono, mortalmente atingido na testa por uma pedra desconhecida, abandona a sua tarefa e remonta aos céus.
Pois bem, apresento-me para defender o homem, desta vez; eu, o desprezador de todas as virtudes; eu, aquele que o Criador não conseguiu esquecer, desde o dia glorioso em que, derrubando do seu pedestal os anais do céu, onde, por não sei que tramóia infame, estavam consignados o seu poder e a sua eternidade, apliquei as minhas quatrocentas ventosas sob a sua axila e lhe arranquei gritos terríveis… Eles transformaram-se em víboras ao sair pela sua boca e foram esconder-se nas moitas, nas muralhas em ruínas, à espreita de dia, à espreita de noite. Esses gritos, tornados rastejantes e dotados de inúmeros anéis, com uma cabeça pequena e achatada, olhos pérfidos, juraram estar à espera da inocência humana; e, quando esta passeia pelos emaranhados dos matagais, ou nas encostas dos taludes, ou sobre as areias das dunas, não tarda a mudar de ideia. Se, contudo, ainda houver tempo; pois, por vezes, o homem vê o veneno infiltrar-se nas veias da sua perna, por uma mordida quase imperceptível, antes que tenha tempo de voltar atrás e alcançar o largo. Foi assim que o Criador, mantendo um sangue-frio admirável, mesmo nas dores mais atrozes, soube extrair, do seu próprio seio, germes nocivos aos habitantes da terra.
Qual não foi o seu espanto quando viu Maldoror, transformado em polvo, avançar contra o seu corpo com as suas oito patas monstruosas, cada uma delas, tira sólida, capaz de abraçar facilmente a circunferência de um planeta. Apanhado desprevenido, debateu-se, por alguns instantes, contra esse abraço viscoso, que se apertava cada vez mais… temi algum golpe traiçoeiro da sua parte; após me ter alimentado abundantemente dos glóbulos desse sangue sagrado, desprendi-me bruscamente do seu corpo majestoso e escondi-me numa caverna, que, desde então, permaneceu a minha morada. Após buscas infrutíferas, ele não me conseguiu encontrar aí. Isso foi há muito tempo; mas creio que agora ele sabe onde está a minha morada; guarda-se de lá entrar; vivemos, ambos, como dois monarcas vizinhos, que conhecem as suas respectivas forças, não podem vencer-se um ao outro e estão cansados das batalhas inúteis do passado. Ele teme-me, e eu temo-o; cada um, sem ser vencido, sentiu os duros golpes do seu adversário, e ficamos por aí. Contudo, estou pronto a recomeçar a luta, quando ele quiser. Mas que não espere algum momento favorável aos seus desígnios ocultos. Estarei sempre em guarda, com o olho nele.
Que não envie mais à terra a consciência e as suas torturas. Ensinei aos homens as armas com as quais se pode combatê-la com vantagem. Ainda não estão familiarizados com ela; mas tu sabes que, para mim, ela é como a palha que o vento leva. Faço dela o mesmo caso. Se quisesse aproveitar a ocasião que se apresenta para subtilizar estas discussões poéticas, acrescentaria que faço até mais caso da palha que da consciência; pois a palha é útil ao boi que a rumina, enquanto a consciência só sabe mostrar as suas garras de aço. Elas sofreram um penoso fracasso no dia em que se colocaram diante de mim. Como a consciência fora enviada pelo Criador, achei conveniente não me deixar barrar o caminho por ela. Se ela se tivesse apresentado com a modéstia e a humildade próprias do seu estatuto, de que nunca deveria ter-se afastado, eu tê-la-ia escutado. Não gostava do seu orgulho. Estendi uma mão e, sob os meus dedos, esmaguei as garras; elas caíram em pó, sob a pressão crescente desse almofariz de novo tipo. Estendi a outra mão e arranquei-lhe a cabeça. Depois expulsei essa mulher da minha casa a chicotadas, e não a vi mais. Guardei a sua cabeça como recordação da minha vitória…
Com uma cabeça na mão, cujo crânio eu roía, mantive-me sobre um pé, como o garça, à beira do precipício escavado nos flancos da montanha. Viram-me descer ao vale, enquanto a pele do meu peito permanecia imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Com uma cabeça na mão, cujo crânio eu roía, nadei nos abismos mais perigosos, contornei os recifes mortais e mergulhei mais fundo que as correntes, para assistir, como um estrangeiro, aos combates dos monstros marinhos; afastei-me da costa até perdê-la da minha vista penetrante; e as cãibras hediondas, com o seu magnetismo paralisante, rondavam os meus membros, que fendiam as ondas com movimentos robustos, sem ousar aproximar-se. Viram-me regressar, são e salvo, à praia, enquanto a pele do meu peito permanecia imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Com uma cabeça na mão, cujo crânio eu roía, subi os degraus ascendentes de uma torre elevada. Cheguei, com as pernas cansadas, à plataforma vertiginosa. Olhei a campina, o mar; olhei o sol, o firmamento; repelindo com o pé o granito que não recuou, desafiei a morte e a vingança divina com um grito supremo e precipitei-me, como um calhau, na boca do espaço. Os homens ouviram o choque doloroso e retumbante que resultou do encontro do solo com a cabeça da consciência, que eu abandonara na queda. Viram-me descer, com a lentidão de um pássaro, levado por uma nuvem invisível, e apanhar a cabeça, para a forçar a ser testemunha de um triplo crime que eu devia cometer nesse mesmo dia, enquanto a pele do meu peito permanecia imóvel e calma, como a tampa de um túmulo!
Com uma cabeça na mão, cujo crânio eu roía, dirigi-me ao lugar onde se erguem os postes que sustentam a guilhotina. Coloquei a graça suave dos pescoços de três jovens sob a lâmina. Carrasco das altas obras, soltei a corda com a aparente experiência de uma vida inteira; e a lâmina triangular, caindo obliquamente, cortou três cabeças que me olhavam com doçura. Depois coloquei a minha sob o cutelo pesado, e o carrasco preparou o cumprimento do seu dever. Por três vezes, a lâmina desceu entre as ranhuras com novo vigor; por três vezes, a minha carcaça material, sobretudo na base do pescoço, foi sacudida até aos alicerces, como quando se imagina em sonho ser esmagado por uma casa que desaba. O povo estupefacto deixou-me passar, para me afastar da praça fúnebre; viu-me abrir com os cotovelos as suas ondas movediças e mover-me, cheio de vida, avançando diante de mim, de cabeça erguida, enquanto a pele do meu peito permanecia imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Eu dissera que queria defender o homem, desta vez; mas temo que a minha apologia não seja a expressão da verdade; e, por conseguinte, prefiro calar-me. É com gratidão que a humanidade aplaudirá esta medida!