Os Cantares de Maldoror (Português Brasileiro)
Segundo Cantar
Estrofe 1
Estrofe 2
Eu pego a pena que vai montar o segundo canto… um troço arrancado das asas de algum pigargo ruivo! Mas… que que tá rolando com meus dedos? As juntas ficam travadas assim que eu começo o trampo. Mesmo assim, eu preciso escrever… Não dá! Beleza, eu repito que preciso botar meu pensamento no papel: eu tenho esse direito, igual qualquer um, de seguir essa lei natural… Mas não, mas não, a pena não mexe!... Olha só, dá uma sacada, pelas campanhas, o relâmpago brilhando lá longe. A tempestade tá cruzando o espaço. Tá chovendo… Tá chovendo sem parar… Como tá chovendo!... O raio explodiu… caiu na minha janela entreaberta e me jogou no chão, com uma pancada na testa. Coitado, jovem! Tua cara já tava bem marcada por rugas antes da hora e pela deformidade de nascença, pra ainda por cima levar essa cicatriz sulfurosa danada! (Acabei de imaginar que a ferida tá curada, o que não vai rolar tão cedo.) Por que essa tempestade, e por que meus dedos travaram? Será um aviso lá de cima pra me impedir de escrever e me fazer pensar melhor no que eu tô me metendo, destilando o veneno da minha boca quadrada? Mas essa tempestade não me botou medo. Eu ia ligar pra uma legião de tempestades! Esses agentes da polícia do céu fazem o serviço deles com vontade, se eu julgar rapidão pela minha testa machucada. Não vou agradecer o Todo-Poderoso pela mira foda dele; ele mandou o raio bem pra cortar minha cara em dois, começando pela testa, o lugar mais perigoso pra ferida: deixa outro dar parabéns pra ele! Mas as tempestades tão mexendo com alguém mais brabo que elas. Então, Eterno do caralho, de cara de cobra, teve que ser assim, né, não bastava ter jogado minha alma entre a loucura e os pensamentos de raiva que matam devagar, tu ainda achou, depois de pensar bem, que era digno da tua majestade fazer sair da minha testa uma tigela de sangue!... Mas, afinal, quem tá te falando alguma coisa? Tu sabe que eu não te amo, e que, na real, te odeio: por que tu insiste? Quando teu jeito vai parar de se enrolar nessa vibe esquisita? Fala comigo na boa, como amigo: tu não saca, afinal, que nessa perseguição nojenta tu mostra um empenho ingênuo, que nenhum dos teus serafins ia ter coragem de zoar o ridículo total? Que raiva te pegou? Fica sabendo que, se tu me deixasse viver sem essas tuas caçadas, minha gratidão era tua… Vem cá, Sultão, com tua língua, tira esse sangue que tá sujando o chão. O curativo tá pronto: minha testa estancada foi lavada com água salgada, e eu cruzei umas faixas pela minha cara. O resultado não é pouca coisa: quatro camisas cheias de sangue e dois lenços. Ninguém ia acreditar, de primeira, que Maldoror tinha tanto sangue nas veias; porque, na cara dele, só brilham os reflexos de cadáver. Mas, enfim, é assim. Talvez seja mais ou menos todo o sangue que o corpo dele aguentava, e deve ter sobrado bem pouco. Chega, chega, cachorro guloso; deixa o chão como tá; teu bucho tá cheio. Não continua bebendo; senão, tu vai vomitar rapidinho. Tá bem satisfeito, vai deitar na casinha; se acha na maior felicidade; porque tu não vai pensar em fome por três dias danados, graças aos glóbulos que tu engoliu pela goela, com uma satisfação toda séria. Você, Léman, pega uma vassoura; eu queria pegar uma também, mas não tenho força. Tu entende, né, que eu não tenho força? Guarda tuas lágrimas na bainha; senão, eu ia achar que tu não tem coragem de encarar, com sangue-frio, a cicatrizona, causada por um castigo que pra mim já se perdeu na noite dos tempos passados. Vai buscar na fonte dois baldes d’água. Quando o chão tiver lavado, bota esses panos na sala do lado. Se a lavadeira voltar hoje à noite, como ela deve fazer, entrega pra ela; mas, como choveu pra caramba há uma hora e ainda tá chovendo, acho que ela não sai de casa; então, ela vem amanhã de manhã. Se ela te perguntar de onde veio todo esse sangue, tu não precisa responder. Nossa! Como eu tô fraco! Não importa; mesmo assim, eu vou ter força pra levantar a caneta e coragem pra cavar meu pensamento. O que o Criador ganhou me enchendo o saco, como se eu fosse criança, com uma tempestade que traz raio? Nem por isso eu largo minha resolução de escrever. Essas faixas me irritam, e o ar do meu quarto fede a sangue…Estrofe 3
Tomara que nunca chegue o dia que eu e Lohengrin passemos na rua, um do lado do outro, sem nem se olhar, roçando o cotovelo, tipo dois caras apressados! Nossa! Me deixa fugir pra sempre dessa ideia doida! O Eterno criou o mundo como ele é: ia mostrar um baita juízo se, no tempo certinho pra esmagar a cabeça de uma mulher com uma martelada, esquecesse a majestade estrelada dele, pra contar pra gente os mistérios que sufocam nossa existência, tipo um peixe no fundo de um barco. Mas ele é grande e foda; passa a gente na potência das ideias dele; se batesse um papo com os humanos, todas as vergonhas iam respingar na cara dele. Mas… seu miserável! Por que tu não fica com vergonha? Não basta que o exército das dores físicas e morais que nos cerca tenha nascido: o segredo do nosso destino todo rasgado não nos contam. Eu conheço o Todo-Poderoso… e ele também deve me conhecer. Se, por acaso, a gente pega o mesmo caminho, o olho afiado dele me vê chegando de longe: ele corta por outro canto, pra escapar do triplo dardo de platina que a natureza me deu de língua! Tu ia me fazer um favorzão, ó Criador, me deixando desabafar o que eu sinto. Com umas ironias brabas, de mão firme e gelada, eu te aviso que meu coração vai ter o bastante pra te atacar até o fim da minha vida. Vou bater na tua carcaça oca; e com tanta força, que eu me encarrego de tirar os pedaços que sobraram da inteligência que tu não quis dar pro homem, por ciúme de deixar ele igual a ti, e que tu escondeu sem vergonha nas tuas tripas, bandido esperto, como se não soubesse que um dia ou outro eu ia achar tudo com meu olho que nunca fecha, arrancar e dividir com meus iguais. Fiz como eu falo, e agora eles não te temem mais; tratam contigo de igual pra igual. Me dá a morte, pra fazer eu me arrepender da minha ousadia: abro meu peito e espero, todo humilde. Apareçam aí, asas ridículas de castigos eternos!... desfiles exagerados de atributos que se acham demais! Ele mostrou que não consegue parar o sangue que circula e zoa com ele. Mesmo assim, eu tenho provas que ele não pensa duas vezes pra apagar, na flor da idade, o fôlego de outros humanos, quando eles mal curtiram os prazeres da vida. Isso é simplesmente foda de horrível; mas só na minha opinião fraquinha! Eu vi o Criador, cutucando a crueldade inútil dele, botar fogo em incêndios onde velhos e crianças morriam! Não sou eu que começo o ataque; é ele que me obriga a girar ele, tipo um pião, com um chicote de cordas de aço. Não é ele que me dá munição contra ele mesmo? Minha verve medonha não vai secar nunca! Ela se alimenta dos pesadelos loucos que ferram minhas noites sem dormir. Foi por causa de Lohengrin que eu escrevi isso aí; então, vamo voltar pra ele. Com medo que ele virasse igual aos outros caras mais tarde, eu tinha decidido primeiro matá-lo a facadas, quando ele passasse da idade da inocência. Mas eu pensei bem e larguei essa ideia na hora certa, com juízo. Ele nem desconfia que a vida dele tava na corda bamba por um quarto de hora. Tudo tava pronto, e a faca já comprada. Esse estilete era bonitinho, porque eu curto graça e elegância até nas coisas da morte; mas era comprido e afiado. Uma facada só no pescoço, acertando direitinho uma das carótidas, e acho que já era. Tô de boa com minha atitude; eu ia me arrepender depois. Então, Lohengrin, faz o que tu quiser, age como te der na telha, me tranca a vida toda numa cela escura, com escorpiões de companhia no meu cativeiro, ou arranca um olho meu até ele cair no chão, eu nunca vou te jogar na cara nada; sou teu, te pertenço, não vivo mais pra mim. A dor que tu me causar não chega nem perto da felicidade de saber que quem me machuca, com essas mãos assassinas, tá mergulhado numa essência mais divina que a dos outros iguais dele! Sim, ainda é foda dar a vida por um ser humano, e assim guardar a esperança que nem todo mundo é mau, porque teve um, afinal, que conseguiu arrancar à força as repulsas desconfiadas da minha simpatia amarga!…Estrofe 4
É meia-noite; não dá mais pra ver nenhum ônibus da Bastilha pra Madeleine. Tô enganado; olha aí um que aparece do nada, como se tivesse saído debaixo da terra. Os poucos caras atrasados na rua olham ele com atenção; porque ele parece não ser igual a nenhum outro. Na parte de cima, tão sentados uns caras com o olho parado, tipo peixe morto. Tão grudados uns nos outros e parece que perderam a vida; mas, pelo menos, o número permitido não passou. Quando o cocheiro dá uma chicotada nos cavalos, parece que o chicote é que mexe o braço dele, e não o braço o chicote. Que que deve ser esse monte de seres esquisitos e calados? Será que são da lua? Tem hora que dá vontade de achar que sim; mas eles parecem mais com cadáveres. O ônibus, louco pra chegar na última parada, engole o espaço e faz o chão rachar… Tá fugindo!... Mas uma massa sem forma corre atrás dele com tudo, nos rastros dele, no meio da poeira.
«Para, por favor, eu te imploro; para… minhas pernas tão inchadas de tanto andar o dia todo… não como desde ontem… meus pais me largaram… não sei mais o que fazer… decidi voltar pra casa, e ia chegar rápido, se vocês me dessem um lugar… sou uma criança de oito anos, e confio em vocês…»
Tá fugindo!... Tá fugindo!... Mas uma massa sem forma corre atrás dele com tudo, nos rastros dele, no meio da poeira. Um desses caras, de olho gelado, dá uma cotovelada no vizinho e parece que tá reclamando dos gemidos, com aquele tom agudo, que chegam no ouvido dele. O outro abaixa a cabeça de leve, tipo concordando, e depois mergulha de novo na imobilidade do egoísmo dele, que nem tartaruga na casca. Tudo mostra, na cara dos outros passageiros, os mesmos sentimentos dos dois primeiros. Os gritos ainda ecoam por uns dois ou três minutos, ficando mais altos a cada segundo. Dá pra ver janelas abrindo no boulevard, e uma cara assustada, com uma luz na mão, depois de dar uma olhada na rua, fecha a janela com força, pra não aparecer mais… Tá fugindo!... Tá fugindo!... Mas uma massa sem forma corre atrás dele com tudo, nos rastros dele, no meio da poeira. Só um jovem, perdido em pensamentos, no meio desses caras de pedra, parece sentir pena do sofrimento. Pra ajudar a criança, que acha que vai alcançá-lo com as perninhas machucadas, ele não tem coragem de abrir a boca; porque os outros caras jogam uns olhares de desprezo e autoridade, e ele sabe que não dá pra fazer nada contra todos. Com o cotovelo nos joelhos e a cabeça nas mãos, ele se pergunta, bobo, se isso é mesmo o que chamam de caridade humana. Aí saca que isso é só uma palavra vazia, que nem no dicionário da poesia acha mais, e admite, na lata, o erro dele. Ele pensa: «De boa, pra que se importar com uma criança? Deixa ela pra lá.» Mas uma lágrima quente rolou na cara desse adolescente, que acabou de blasfemar. Ele passa a mão com dificuldade na testa, como se quisesse tirar uma nuvem que tá escurecendo a cabeça dele. Se debate, mas não adianta, no século que jogaram ele; sente que não tá no lugar dele, e mesmo assim não consegue sair. Prisão foda! Fatalidade medonha! Lombano, eu tô de boa contigo desde esse dia! Não parava de te olhar, enquanto minha cara tinha a mesma indiferença dos outros passageiros. O adolescente se levanta, num pico de revolta, e quer dar o fora, pra não fazer parte, nem sem querer, de uma parada errada. Eu faço um sinal pra ele, e ele volta pro meu lado… Tá fugindo!... Tá fugindo!... Mas uma massa sem forma corre atrás dele com tudo, nos rastros dele, no meio da poeira. Os gritos param de repente; porque a criança tropeçou numa pedra que tava pra fora e machucou a cabeça ao cair. O ônibus sumiu no horizonte, e só dá pra ver a rua quieta… Tá fugindo!... Tá fugindo!... Mas uma massa sem forma não corre mais atrás dele com tudo, nos rastros dele, no meio da poeira. Olha esse catador de lixo que passa, curvado com a lanterna fraquinha; tem mais coração nele que em todos aqueles caras do ônibus. Ele acabou de pegar a criança; pode ter certeza que vai curar ela e não vai largar, como os pais dela fizeram. Tá fugindo!... Tá fugindo!... Mas, de onde ele tá, o olho afiado do catador corre atrás dele com tudo, nos rastros dele, no meio da poeira!... Raça estúpida e idiota! Tu vai se arrepender de agir assim. Sou eu que te falo. Vai se arrepender, hein! Vai se arrepender. Minha poesia vai ser só atacar, de todo jeito, o homem, essa fera braba, e o Criador, que não devia ter criado uma vermina dessas. Os livros vão se empilhar em cima de livros, até o fim da minha vida, e mesmo assim só vai ter essa ideia, sempre na minha consciência!
Estrofe 5
Dando meu rolé diário, todo dia eu passava por uma rua estreita; todo dia, uma menina magrela de dez anos vinha atrás de mim, de longe, com respeito, por essa rua, me olhando com umas pálpebras simpáticas e curiosas. Ela era alta pra idade e tinha a cintura fininha. Um monte de cabelo preto, dividido em dois na cabeça, caía em tranças soltas sobre uns ombros branquinhos. Um dia, ela tava me seguindo como sempre; os braços fortes de uma mulher do povo pegaram ela pelos cabelos, tipo um redemoinho agarrando uma folha, deram dois tapas brabos numa cara orgulhosa e calada, e arrastaram de volta pra casa essa consciência perdida. Eu tentava bancar o desleixado, mas não adiantava; ela nunca deixava de me seguir com essa presença que agora tava sobrando. Quando eu virava pra outra rua pra seguir meu caminho, ela parava, fazendo um esforço danado em si mesma, no fim dessa rua estreita, parada que nem a estátua do Silêncio, e ficava olhando pra frente, até eu sumir. Uma vez, essa menina passou na minha frente na rua e caminhou na minha frente. Se eu acelerava pra passar ela, ela quase corria pra manter a mesma distância; mas, se eu diminuía o passo, pra abrir um espaço maior entre ela e eu, aí ela desacelerava também, com a graça de criança. Chegando no fim da rua, ela se virou devagar, de um jeito que me cortou o caminho. Não deu tempo de desviar, e eu fiquei cara a cara com ela. Os olhos dela tava inchados e vermelhos. Dava pra ver fácil que ela queria me falar, mas não sabia como começar. Ficando de repente pálida que nem defunto, ela me perguntou: «O senhor teria a bondade de me dizer que horas são?» Eu disse que não tava com relógio e saí rápido. Desde esse dia, criança de imaginação inquieta e precoce, tu não viu mais, na rua estreita, o jovem misterioso que batia pesado, com a sandália grossa, no chão das encruzilhadas tortas. A aparição dessa cometa pegando fogo não vai mais brilhar, tipo um motivo triste de curiosidade louca, na fachada da tua observação frustrada; e tu vai pensar muito, demais, talvez sempre, naquele que parecia não ligar pros males nem pros bens da vida agora, e ia andando ao léu, com uma cara horrível de morta, os cabelos arrepiados, o passo cambaleante, e os braços nadando cegos nas águas irônicas do éter, como se procurasse a presa sangrenta da esperança, sacudida sem parar, pelas regiões imensas do espaço, pela pá de tirar neve braba da fatalidade. Tu não vai me ver mais, e eu não vou te ver mais!... Quem sabe? Talvez essa mina não fosse o que parecia. Debaixo de uma casca ingênua, ela escondia talvez uma astúcia danada, o peso de dezoito anos e o charme do vício. Já se viu vendedoras de amor saírem alegres das ilhas Britânicas e cruzarem o estreito. Elas abriam as asas, girando em enxames dourados, na frente da luz parisiense; e, quando tu via elas, tu falava: «Mas elas ainda são crianças; não têm mais de dez ou doze anos.» Na real, tinham vinte. Nossa! Nessa ideia, que sejam amaldiçoados os desvios dessa rua escura! Horrível! Horrível! o que rola ali. Acho que a mãe bateu nela porque ela não fazia o trampo com jeito suficiente. Pode ser que fosse só uma criança, e aí a mãe é ainda mais culpada. Eu não quero acreditar nessa ideia, que é só uma suposição, e prefiro curtir, nesse jeito romântico, uma alma que se mostra cedo demais… Beleza, vê só, mina, te aviso pra não aparecer mais na minha frente, se eu passar de novo pela rua estreita. Pode te custar caro! Já o sangue e o ódio sobem pra minha cabeça, em ondas quentes. Eu, ser generoso o suficiente pra amar meus iguais! Não, não! Resolvi isso desde o dia que nasci! Eles não me amam, esses aí! Os mundos vão se destruir, e o granito vai deslizar, tipo um corvo-marinho, na superfície das ondas, antes que eu toque na mão podre de um ser humano. Sai pra trás… sai pra trás, essa mão!... Mina, tu não é um anjo, e no fim tu vai acabar igual às outras mulheres. Não, não, te imploro; não aparece mais na frente das minhas sobrancelhas franzidas e tortas. Num momento de loucura, eu podia pegar teus braços, torcer eles que nem um pano lavado que a gente espreme a água, ou quebrar eles com barulho, tipo dois galhos secos, e depois te fazer comer eles, usando força. Eu podia, pegando tua cabeça nas minhas mãos, com um ar carinhoso e suave, cravar meus dedos famintos nos lobos do teu cérebro inocente, pra tirar, com um sorriso na cara, uma gordura boa que limpe meus olhos, doídos pela insônia eterna da vida. Eu podia, costurando tuas pálpebras com uma agulha, te tirar o rolé de ver o universo e te deixar sem chance de achar teu caminho; não sou eu que vou te guiar. Eu podia, levantando teu corpo virgem com um braço de ferro, te segurar pelas pernas, te girar em volta de mim, tipo uma funda, juntar minhas forças desenhando o último círculo, e te jogar contra a parede. Cada gota de sangue ia respingar num peito humano, pra assustar os caras e botar na frente deles o exemplo da minha maldade! Eles iam se arrancar pedaços e mais pedaços de carne sem parar; mas a gota de sangue fica lá, que não sai, no mesmo lugar, e vai brilhar que nem diamante. Fica de boa, eu vou mandar meia dúzia de criados cuidar dos restos sagrados do teu corpo, e proteger eles da fome dos cachorros gulosos. Claro, o corpo ficou grudado na parede, tipo uma pera madura, e não caiu no chão; mas os cachorros sabem dar uns pulos altos, se ninguém tomar cuidado.Estrofe 6
Essa criança, sentada num banco do jardim das Tulherias, como é gente fina! Os olhos dela, cheios de ousadia, miram algum troço invisível, lá longe, no espaço. Não deve ter mais de oito anos, e mesmo assim não tá brincando, como seria o normal. Pelo menos ela devia tá rindo e dando rolé com algum parceiro, em vez de ficar sozinha; mas esse não é o jeito dela. Essa criança, sentada num banco do jardim das Tulherias, como é gente fina! Um cara, com um plano escondido na manga, vem e senta do lado dela, no mesmo banco, com umas atitudes estranhas. Quem é ele? Não preciso te contar; porque tu vai sacar quem ele é pelo papo torto dele. Vamos ouvir, sem atrapalhar:
— No que tu tava pensando, criança?
— Tava pensando no céu.
— Não precisa pensar no céu; já chega pensar na terra. Tu tá cansado de viver, tu, que mal acabou de nascer?
— Não, mas todo mundo prefere o céu à terra.
— Beleza, eu não. Porque, já que o céu foi feito por Deus, igual a terra, pode ter certeza que lá tu vai encontrar os mesmos perrengues que aqui embaixo. Depois que tu morrer, não vai ser recompensado pelo que tu merece; porque, se te ferram com injustiças nesta terra (como tu vai sentir na pele, mais tarde), não tem por que achar que, na outra vida, não vão te ferrar também. O melhor que tu tem a fazer é não pensar em Deus e fazer justiça com tuas próprias mãos, já que te negam ela. Se um dos teus parceiros te sacaneasse, tu não ia ficar feliz de matar ele?
— Mas isso é proibido.
— Não é tão proibido quanto tu acha. É só não deixar te pegarem. A justiça das leis não vale nada; o que conta é a justiça de quem foi sacaneado. Se tu odiasse um dos teus parceiros, tu não ia ficar triste pensando que, a cada instante, tem o pensamento dele na tua frente?
— É verdade.
— Então, olha aí um parceiro teu que te deixaria triste a vida toda; porque, vendo que teu ódio é só de boa, ele não ia parar de zoar contigo e te ferrar sem castigo. Só tem um jeito de acabar com essa parada: é se livrar do teu inimigo. Foi pra isso que eu quis chegar, pra te mostrar em que bases tá montada a sociedade de hoje. Cada um tem que fazer justiça por si, senão é só um otário. Quem ganha dos outros, esse é o mais esperto e o mais forte. Tu não ia querer um dia mandar nos teus iguais?
— Sim, sim.
— Então, sê o mais forte e o mais esperto. Tu ainda é muito novo pra ser o mais forte; mas, desde já, tu pode usar a malandragem, a arma mais foda dos caras geniais. Quando o pastor Davi acertou a testa do gigante Golias com uma pedra jogada pela funda, não é doido ver que foi só pela malandragem que Davi ganhou do adversário, e que, se fosse no braço, o gigante tinha esmagado ele que nem mosca? É a mesma coisa contigo. Numa briga aberta, tu nunca vai vencer os caras que tu quer mandar; mas, com malandragem, tu pode lutar sozinho contra todos. Tu quer riquezas, palácios foda e fama? Ou tu me enganou quando me falou dessas pretensões maneiras?
— Não, não, eu não te enganei. Mas eu queria conquistar o que eu quero de outro jeito.
— Então, tu não vai conquistar nada. Os jeitos bonzinhos e inocentes não levam a nada. Tem que botar pra funcionar umas alavancas mais brabas e umas tramoias mais espertas. Antes que tu fique famoso pela tua virtude e chegue no teu objetivo, outros cem vão ter tempo de dar piruetas por cima das tuas costas e chegar no fim da corrida antes de ti, de um jeito que não vai sobrar espaço pras tuas ideias apertadas. Tem que saber abraçar, com mais grandeza, o horizonte do tempo de agora. Tu nunca ouviu falar, por exemplo, da fama danada que as vitórias trazem? E olha que as vitórias não rolam sozinhas. Tem que derramar sangue, muito sangue, pra fazer elas nascerem e jogá-las nos pés dos conquistadores. Sem os cadáveres e os pedaços espalhados que tu vê na planície, onde o massacre rolou direitinho, não ia ter guerra, e, sem guerra, não ia ter vitória. Tu saca que, quando quer ficar famoso, tem que mergulhar com classe em rios de sangue, cheios de carne pra canhão. O fim justifica o meio. A primeira coisa pra ficar famoso é ter grana. Como tu não tem, vai ter que matar pra conseguir; mas, como tu não é forte o bastante pra usar o punhal, vira ladrão, enquanto teus braços não crescem. E, pra eles crescerem mais rápido, te aconselho a fazer ginástica duas vezes por dia, uma hora de manhã, uma hora à noite. Assim, tu pode tentar o crime, com algum sucesso, já com quinze anos, em vez de esperar até os vinte. O amor pela glória desculpa tudo, e talvez, mais tarde, mandando nos teus iguais, tu faça quase tanto bem pra eles quanto mal tu fez no começo!...
Maldoror percebe que o sangue tá fervendo na cabeça do jovem que tá falando com ele; as narinas tão inchadas, e os lábios soltam uma espuminha branca. Ele pega o pulso dele; as batidas tão aceleradas. A febre pegou esse corpo delicado. Ele fica com medo do que as palavras dele podem causar; dá um jeito de escapar, o coitado, chateado por não ter conseguido segurar essa criança por mais tempo. Quando, na idade madura, é tão difícil dominar as paixões, balançando entre o bem e o mal, imagina num espírito ainda cheio de inexperiência? E quanta energia a mais ele não precisa? A criança vai se safar ficando três dias na cama. Tomara que o céu deixe o toque da mãe trazer paz pra essa flor sensível, casca frágil de uma alma bonita!
Estrofe 7
Ali, num bosque cercado de flores, tá dormindo o hermafrodita, num sono pesado sobre a grama, molhada pelas lágrimas dele. A lua abriu seu disco no meio das nuvens e acaricia com uns raios pálidos essa cara suave de adolescente. Os traços dele mostram a energia mais macho, junto com a graça de uma virgem do céu. Nada parece natural nele, nem os músculos do corpo, que cortam caminho pelos contornos maneirinhos de formas femininas. Ele tá com o braço dobrado na testa, a outra mão encostada no peito, como se quisesse segurar as batidas de um coração trancado pra qualquer papo, carregado do peso brabo de um segredo eterno. Cansado da vida e com vergonha de andar entre uns seres que não parecem com ele, o desespero pegou a alma dele, e ele vai sozinho, tipo o mendigo do vale. Como ele arranja o que precisa pra viver? Umas almas que sentem pena cuidam dele de pertinho, sem ele nem desconfiar dessa vigia, e não largam ele: ele é tão gente boa! tão conformado! Às vezes, ele fala de boa com quem tem o coração sensível, sem tocar na mão deles, ficando de longe, com medo de um perigo que só ele vê. Se perguntam por que ele escolheu a solidão de parceira, os olhos dele sobem pro céu e seguram com força uma lágrima de bronca contra a Providência; mas ele não responde essa pergunta sem noção, que bota, na neve das pálpebras dele, o vermelho da rosa da manhã. Se o papo se estica, ele fica nervoso, vira os olhos pros quatro cantos do horizonte, como se quisesse fugir de um inimigo invisível que tá chegando, faz um tchau rápido com a mão, sai voando nas asas da sua vergonha ligada e some na floresta. Geral acha que ele é louco. Um dia, quatro caras mascarados, que tinham ordens, se jogaram em cima dele e amarraram ele bem firme, só deixando as pernas livres. O chicote baixou as correias duras nas costas dele, e eles mandaram ele ir sem demora pra estrada que leva a Bicêtre. Ele deu um sorriso enquanto apanhava e falou com eles com tanto sentimento e inteligência sobre um monte de ciências humanas que ele tinha estudado, mostrando um conhecimento foda pra quem ainda nem passou da juventude, e sobre os destinos da humanidade, onde ele abriu toda a nobreza poética da alma dele, que os guardas, assustados até o sangue com o que tinham feito, soltaram os membros quebrados dele, se arrastaram pros joelhos dele, pedindo um perdão que ele deu, e saíram fora, com sinais de uma veneração que não se dá normalmente pros caras. Desde esse dia, que deu o que falar, o segredo dele foi sacado por todo mundo, mas fingem que não sabem, pra não piorar o sofrimento dele; e o governo dá pra ele uma pensão decente, pra fazer ele esquecer que, por um instante, quiseram enfiar ele à força, sem checar antes, num hospício de loucos. Ele usa metade da grana; o resto, dá pros pobres. Quando vê um cara e uma mina passeando por alguma alameda de plátanos, sente o corpo dele se partir em dois, de baixo pra cima, e cada pedaço novo ir abraçar um dos passeantes; mas é só uma viagem na cabeça, e a razão logo toma conta de novo. Por isso, ele não mistura a presença dele nem com os homens, nem com as mulheres; porque a vergonha exagerada dele, que nasceu da ideia de que ele é só um monstro, não deixa ele dar essa simpatia quente pra ninguém. Ele ia achar que tá se sujando, e que tá sujando os outros. O orgulho dele fica repetindo esse ditado: «Cada um no seu lugar.» O orgulho dele, eu digo, porque ele tem medo que, se juntar a vida dele com um cara ou uma mina, cedo ou tarde joguem na cara dele, como se fosse um erro danado, o jeito que ele é feito. Aí, ele se fecha no amor-próprio dele, magoado com essa ideia sacana que vem só dele, e teima em ficar sozinho, no meio dos perrengues, sem conforto. Ali, num bosque cercado de flores, tá dormindo o hermafrodita, num sono pesado sobre a grama, molhada pelas lágrimas dele. Os passarinhos, acordados, olham com um encanto danado essa cara tristinha, por entre os galhos das árvores, e o rouxinol não quer soltar suas cavatinas cristalinas. O bosque ficou sério que nem túmulo, com a presença noturna do hermafrodita coitado. Ó viajante perdido, pelo teu jeito aventureiro que te fez largar teu pai e tua mãe desde novinho; pelos perrengues que a sede te deu no deserto; pela tua terra, que tu talvez procura, depois de rodar um tempão, banido, por terras estranhas; pelo teu cavalo, teu amigo fiel, que aguentou contigo o exílio e os climas brabos que teu jeito de andar por aí te levava; pela dignidade que as viagens por terras distantes e mares desconhecidos, entre os gelos polares ou sob o sol que torra, dão pro cara, não encosta com tua mão, tipo um sopro de brisa, nesses cachos de cabelo espalhados no chão, que se misturam com a grama verde. Sai uns passos pra trás, e tu vai fazer melhor assim. Essa cabeleira é sagrada; foi o próprio hermafrodita que quis assim. Ele não quer que uns lábios humanos beijem com fé os cabelos dele, cheirosos pelo vento da montanha, nem a testa dele, que agora brilha que nem as estrelas do céu. Mas é mais certo achar que uma estrela mesmo caiu da órbita dela, cortando o espaço, pra essa testa foda, que ela cerca com um brilho de diamante, tipo uma auréola. A noite, empurrando a tristeza com o dedo, se enfeita toda pra comemorar o sono dessa encarnação da vergonha, dessa imagem perfeita da pureza dos anjos: o barulhinho dos bichos fica mais baixo. Os galhos curvam sua altura cheia de folhas pra proteger ele do orvalho, e a brisa, tocando as cordas da harpa melodiosa dela, manda uns acordes alegres, pelo silêncio geral, pras pálpebras fechadas, que acham que tão vendo, paradas, o show ritmado dos mundos pendurados. Ele sonha que tá feliz; que o corpo dele mudou; ou que, pelo menos, voou numa nuvem roxa pra outra esfera, cheia de seres iguais a ele. Ai! Que a ilusão dele dure até o sol raiar! Ele sonha que as flores dançam em roda à volta dele, tipo umas guirlandas doidas e gigantes, e enchem ele dos perfumes suaves delas, enquanto ele canta um hino de amor, nos braços de um ser humano de uma beleza mágica. Mas é só um vapor do crepúsculo que os braços dele abraçam; e, quando ele acordar, os braços dele não vão abraçar mais. Não acorda, hermafrodita; não acorda ainda, te imploro. Por que tu não acredita em mim? Dorme… dorme pra sempre. Que teu peito suba, correndo atrás da esperança louca da felicidade, eu te deixo; mas não abre teus olhos. Nossa! Não abre teus olhos! Quero te largar assim, pra não ver teu despertar. Talvez um dia, com um livro grandão, em páginas que mexem com a gente, eu conte tua história, apavorado com o que ela tem e com as lições que ela dá. Até agora, eu não consegui; porque, toda vez que tentei, um monte de lágrimas caía no papel, e meus dedos tremiam, sem ser de velhice. Mas eu quero ter essa coragem no fim. Tô puto de não ter mais nervo que uma mulher e de desmaiar, que nem menina, toda vez que penso na tua miséria danada. Dorme… dorme pra sempre; mas não abre teus olhos. Nossa! Não abre teus olhos! Tchau, hermafrodita! Todo dia, eu não vou deixar de rezar pro céu por ti (se fosse por mim, eu não rezava). Que a paz fique no teu peito!Estrofe 8
Quando uma mina, com voz de soprano, solta suas notas vibrantes e melodiosas, ouvindo essa harmonia humana, meus olhos se enchem de uma chama escondida e jogam faíscas que doem, enquanto nos meus ouvidos parece tocar o sino do canhão. De onde vem essa repulsa braba por tudo que é do homem? Se os acordes saem das cordas de um instrumento, eu escuto com um prazer danado essas notas suaves que pulam em ritmo pelas ondas elásticas do ar. O som chega no meu ouvido só com uma doçura que derrete os nervos e o pensamento; um torpor foda me cobre com suas papoulas mágicas, tipo um véu que filtra a luz do dia, a força braba dos meus sentidos e a energia viva da minha imaginação. Dizem que eu nasci nos braços da surdez! Nos primeiros tempos da minha infância, eu não ouvia o que me falavam. Quando, com um esforço danado, conseguiram me ensinar a falar, era só depois de ler num papel o que alguém escrevia que eu conseguia passar, por minha vez, o fio dos meus pensamentos. Um dia, dia do caralho, eu tava crescendo em beleza e pureza; e todo mundo ficava bobo com a inteligência e a bondade do adolescente divino. Um monte de consciências ficava com vergonha vendo esses traços clarinhos onde a alma dele tinha botado seu trono. Só se chegava perto dele com respeito, porque dava pra ver nos olhos dele o olhar de um anjo. Mas não, eu sabia de sobra que as rosas felizes da adolescência não iam florir pra sempre, trançadas em guirlandas doidas, na testa modesta e nobre dele, que todas as mães beijavam com loucura. Começava a me parecer que o universo, com essa abóbada estrelada de globos parados e chatos, talvez não fosse o que eu tinha sonhado de mais foda. Um dia, então, cansado de bater o pé no caminho torto da vida na terra e de andar, cambaleando que nem bêbado, pelas catacumbas escuras da existência, levantei devagar meus olhos tristonhos, com um círculo azulado em volta, pro céu abaulado, e ousei meter o nariz, eu, tão novo, nos mistérios do céu! Não achando o que eu queria, levantei ainda mais a pálpebra assustada, mais alto, mais alto ainda, até que vi um trono, feito de merda humana e ouro, onde tava sentado, com um orgulho idiota, coberto por um sudário de lençóis sujos de hospital, aquele que se chama Criador! Ele segurava na mão o tronco podre de um cara morto e levava ele, de um lado pro outro, dos olhos pro nariz e do nariz pra boca; quando chegava na boca, dá pra imaginar o que ele fazia. Os pés dele tavam mergulhados numa poça gigante de sangue fervendo, onde de repente subiam, tipo vermes num penico, duas ou três cabeças espertas, que logo baixavam, rápido que nem flecha: um chute bem dado no osso do nariz era a recompensa manjada por quebrar as regras, por precisar respirar outro ar; porque, no fim, esses caras não eram peixes! No máximo uns anfíbios, nadando entre duas águas nesse líquido nojento!... até que, sem nada na mão, o Criador, com as duas primeiras garras do pé, pegava outro mergulhador pelo pescoço, tipo numa tenaz, e levantava ele no ar, pra fora do lodo avermelhado, um molho dos bons! Com esse, ele fazia igual ao outro. Primeiro engolia a cabeça, as pernas e os braços, e por último o tronco, até não sobrar nada; porque ele triturava os ossos. E assim ia, nas outras horas da eternidade dele. Às vezes ele gritava:
«Eu criei vocês; então, tenho o direito de fazer o que quiser com vocês. Vocês não me fizeram nada, não digo que sim. Faço vocês sofrerem, e é pro meu prazer.»
E voltava pro rango cruel dele, mexendo o queixo de baixo, que balançava a barba cheia de miolos. Ó leitor, esse último detalhe não te dá água na boca? Nem todo mundo come um cérebro desses, tão bom, fresquinho, pescado há só um quarto de hora no lago dos peixes. Com os braços e pernas travados, e a garganta calada, eu fiquei um tempo olhando esse show. Três vezes, quase caí pra trás, tipo um cara que leva um choque forte demais; três vezes, consegui me segurar de pé. Nenhuma parte do meu corpo ficava parada; e eu tremia, que nem a lava dentro de um vulcão. No fim, com o peito apertado, sem conseguir jogar fora rápido o ar que dá vida, os lábios da minha boca se abriram, e eu soltei um grito… um grito tão rasgado… que eu ouvi! As correntes do meu ouvido se soltaram de repente, o tímpano rachou com o impacto dessa massa de som jogada pra longe de mim com força, e rolou um negócio novo no ouvido que a natureza tinha condenado. Eu tinha ouvido um som! Um quinto sentido aparecia em mim! Mas que prazer eu ia tirar duma descoberta dessas? De agora em diante, o som humano chegava no meu ouvido só com o sentimento da dor que vem da pena por uma injustiça danada. Quando alguém me falava, eu lembrava o que eu tinha visto, um dia, acima das esferas que dá pra ver, e a tradução dos meus sentimentos sufocados num berro brabo, que tinha o mesmo tom dos meus iguais! Eu não conseguia responder; porque os castigos jogados na fraqueza do homem, nesse mar nojento de vermelho, passavam na minha frente rugindo que nem elefantes esfolados, e roçavam com as asas de fogo meus cabelos torrados. Depois, quando conheci mais a humanidade, essa pena virou uma raiva braba contra essa tigresa madrasta, cujos filhos duros só sabem amaldiçoar e fazer o mal. Que ousadia da mentira! Eles dizem que o mal tá neles só de vez em quando!... Agora, isso acabou faz tempo; faz tempo que eu não falo com ninguém. Ó vocês, quem quer que sejam, quando tiverem do meu lado, não deixem as cordas da garganta soltarem nenhum som; que o laringe parado não tente superar o rouxinol; e vocês mesmos não tentem de jeito nenhum me mostrar a alma de vocês com palavras. Fiquem num silêncio religioso, que nada quebre; cruzem as mãos no peito com humildade e baixem os olhos. Já falei pra vocês, desde a visão que me mostrou a verdade foda, um monte de pesadelos chupou minha garganta com vontade, nas noites e nos dias, pra eu ainda ter coragem de passar de novo, nem que seja no pensamento, pelos sofrimentos que eu senti naquela hora infernal, que me persegue sem parar com a lembrança dela. Nossa! Quando vocês ouvem a avalanche de neve caindo do alto da montanha gelada; a leoa chorando, no deserto seco, pelos filhotes que sumiram; a tempestade cumprindo o destino dela; o condenado gemendo, na cadeia, na véspera da guilhotina; e o polvo brabo contando, pras ondas do mar, as vitórias dele contra os nadadores e os náufragos, me digam, essas vozes foda não são mais bonitas que o risinho do homem?
Estrofe 9
Tem um bicho que os caras alimentam do próprio bolso. Não devem nada pra ele; mas têm medo dele. Esse bicho, que não curte vinho, mas prefere sangue, se não dessem o que ele precisa de boa, seria capaz, por um poder do além, de crescer até virar um elefante, esmagando os caras que nem espigas. Por isso, tem que ver como respeitam ele, como cercam ele de uma veneração canina, como botam ele num pedestal acima dos bichos da criação. Dão a cabeça pra ele como trono, e ele, com classe, crava as garras na raiz dos cabelos. Depois, quando tá gordo e chega numa idade avançada, seguindo o costume de um povo antigo, matam ele, pra ele não sentir os perrengues da velhice. Fazem um enterro foda, tipo pra um herói, e o caixão, que leva ele direto pro tampo da cova, é carregado nos ombros pelos cidadãos mais importantes. Na terra molhada que o coveiro mexe com a pá esperta dele, juntam frases coloridas sobre a imortalidade da alma, o nada da vida, a vontade sem explicação da Providência, e o mármore se fecha, pra sempre, sobre essa vida cheia de trampo, que agora é só um defunto. A galera se espalha, e a noite logo cobre com sombras as paredes do cemitério.
Mas se consolem, humanos, dessa perda dolorosa. Olha aí a família danada dele, que vem chegando, e que ele deu pra vocês de boa, pra que o desespero de vocês fosse menos amargo, e tipo suavizado pela presença legal desses abortos raivosos, que depois vão virar piolhos foda, cheios de uma beleza braba, monstros com cara de sábio. Ele chocou umas dúzias de ovos queridos, com a asa de mãe dele, nos cabelos de vocês, ressecados pela chupada braba desses estranhos temidos. O tempo chegou rapidinho, e os ovos estouraram. Não tenham medo, eles não vão demorar pra crescer, esses adolescentes filósofos, nessa vida curtinha. Vão crescer tanto que vocês vão sentir, com as garras e os chupadores deles.
Vocês não sabem, seus caras, por que eles não comem os ossos da cabeça de vocês, e só pegam, com a bomba deles, o melhor do sangue de vocês. Espera um segundo, eu vou contar pra vocês: é porque eles não têm força pra isso. Podem ter certeza que, se a boca deles fosse do tamanho dos desejos loucos deles, o cérebro, a retina dos olhos, a coluna, todo o corpo de vocês ia embora. Tipo uma gota d’água. Na cabeça de um mendigo novo das ruas, olha, com um microscópio, um piolho que tá trabalhando; depois me contem como foi. Que pena que eles são pequenos, esses bandidos dos cabelos compridos. Não iam servir pra ser recrutas; porque não têm o tamanho que a lei pede. Eles são do mundinho liliputiano dos de coxa curta, e os cegos não pensam duas vezes pra botar eles entre os infinitamente pequenos. Coitada da baleia que brigasse com um piolho. Ia ser engolida num piscar de olhos, apesar do tamanho dela. Não ia sobrar nem o rabo pra contar a história. O elefante deixa a gente fazer carinho. O piolho, não. Não te aconselho a tentar essa parada arriscada. Cuidado, se tua mão for peluda, ou só feita de osso e carne. Teus dedos tão ferrados. Vão estalar como se tavam na tortura. A pele some por um encantamento esquisito. Os piolhos não conseguem fazer tanto mal quanto a imaginação deles planeja. Se tu achar um piolho no teu caminho, segue em frente e não lambe as papilas da língua dele. Alguma coisa ia te acontecer. Já rolou isso. Não importa, eu já tô de boa com o tanto de mal que ele te faz, ó raça humana; só queria que ele te ferrasse mais.
Até quando tu vai ficar com esse culto podre desse deus, que não liga pras tuas rezas e pras oferendas maneiras que tu dá pra ele como sacrifício pra apagar pecado? Olha, ele não é grato, esse manitu nojento, pelas taças cheias de sangue e cérebro que tu espalha nos altares dele, enfeitados com grinaldas de flores com fé. Ele não é grato… porque os tremores de terra e as tempestades continuam rolando desde o começo das coisas. E mesmo assim, parada digna de ver, quanto mais ele se mostra indiferente, mais tu admira ele. Dá pra ver que tu desconfia dos atributos dele, que ele esconde; e teu raciocínio se apoia nessa ideia, que só uma divindade com um poder brabo pode mostrar tanto desprezo pelos fiéis que seguem a religião dele. É por isso que, em cada lugar, tem deuses diferentes, aqui o crocodilo, ali a vendedora de amor; mas, quando o papo é piolho, a esse nome sagrado, beijando geral as correntes da escravidão deles, todos os povos se ajoelham juntos no adro foda, na frente do pedestal do ídolo sem forma e sanguinário. O povo que não obedecesse aos instintos de rastejar e fizesse cara de revolta sumiria, cedo ou tarde, da terra, tipo uma folha de outono, destruído pela vingança do deus que não perdoa.
Ó piolho, de olho encolhido, enquanto os rios jogarem suas águas pros buracos do mar; enquanto os astros rodarem no caminho da órbita deles; enquanto o vazio quieto não tiver horizonte; enquanto a humanidade rasgar os próprios lados com guerras sinistras; enquanto a justiça divina jogar seus raios vingadores nesse globo egoísta; enquanto o homem não conhecer o criador dele e zoar com ele, não sem motivo, misturando desprezo, teu reino vai tá garantido no universo, e tua dinastia vai esticar os anéis de século em século. Te saúdo, sol nascente, libertador do céu, tu, inimigo invisível do homem. Continua mandando a sujeira se juntar com ele em abraços nojentos e jurar, com promessas que não tão escritas no pó, que vai ser a amante fiel dele até o fim dos tempos. Beija de vez em quando a roupa dessa grande safada, pra lembrar dos serviços brabos que ela não deixa de te dar. Se ela não seduzisse o homem, com esses peitos lascivos, é capaz que tu não existisse, tu, filho desse cruzamento esperto e lógico. Ó filho da sujeira! Fala pra tua mãe que, se ela largar a cama do homem, andando por estradas solitárias, sozinha e sem apoio, vai ver a vida dela em risco. Que as tripas dela, que te carregaram nove meses nas paredes cheirosas delas, se mexam um instante pensando nos perigos que o teu fruto tenro, tão gente fina e tranquilo, mas já frio e feroz, ia correr por causa disso. Sujeira, rainha dos impérios, guarda pros olhos do meu ódio o show do crescimento devagar dos músculos da tua cria faminta. Pra chegar nesse objetivo, tu sabe que é só se grudar mais forte nos lados do homem. Pode fazer isso, sem problema pro pudor, porque vocês dois tão casados há um tempão.
Quanto a mim, se me deixam botar umas palavras nesse hino de glorificação, eu digo que mandei fazer uma fossa, de quarenta léguas quadradas, e com uma profundidade relativa. É aí que tá, na sua virgindade nojenta, uma mina viva de piolhos. Ela enche o fundo da fossa e depois rasteja, em veias grossas e densas, pra todos os lados. Foi assim que eu montei essa mina artificial. Arranquei um piolho fêmea dos cabelos da humanidade. Me viram deitar com ele por três noites seguidas, e joguei ele na fossa. A fecundação humana, que não ia dar em nada em outros casos assim, foi aceita, dessa vez, pela fatalidade; e, depois de uns dias, milhares de monstros, se mexendo num bolo compacto de matéria, nasceram pra luz. Esse bolo medonho foi ficando, com o tempo, cada vez mais gigante, pegando a vibe líquida do mercúrio, e se espalhou em vários ramos, que se alimentam, agora, se comendo uns aos outros (a natalidade é maior que a mortalidade), toda vez que eu não jogo pra eles um bastardo recém-nascido, que a mãe queria que morresse, ou um braço que eu corto de alguma mina nova, de noite, com clorofórmio. De quinze em quinze anos, as gerações de piolhos, que comem o homem, diminuem pra caramba e elas mesmas prevêem, sem erro, a hora próxima da destruição total delas. Porque o homem, mais esperto que o inimigo dele, consegue dar um jeito nele. Aí, com uma pá infernal que aumenta minha força, eu tiro dessa mina sem fim uns blocos de piolhos, grandes que nem montanhas, quebro eles a machadadas e levo, nas noites escuras, pras veias das cidades. Lá, com a temperatura humana, eles se derretem que nem nos primeiros dias da formação deles nas galerias tortas da mina subterrânea, cavam um leito no cascalho e se espalham em riachos pelas casas, tipo espíritos do mal. O cachorro da casa late baixinho, porque acha que uma legião de bichos estranhos tá furando os poros das paredes e trazendo o medo pro lado da cama. Talvez vocês não tenham deixado de ouvir, pelo menos uma vez na vida, esses latidos sofridos e longos. Com os olhos fracos dele, ele tenta enxergar no escuro da noite; porque o cérebro de cachorro dele não entende isso. Esse zumbido deixa ele nervoso, e ele sente que tá sendo traído. Milhões de inimigos caem assim em cada cidade, que nem nuvens de gafanhotos. Tá aí por quinze anos. Eles vão brigar com o homem, fazendo feridas que ardem. Depois desse tempo, eu mando outros. Quando eu trituro os blocos de matéria viva, pode rolar que um pedaço seja mais denso que o outro. Os átomos dele se esforçam com raiva pra separar o bolo e ir atormentar a humanidade; mas a união resiste na dureza dela. Num último esforço foda, eles geram uma força tão braba que a pedra, não conseguindo soltar os pedaços vivos dela, se joga sozinha pro alto, tipo efeito de pólvora, e cai, se enterrando firme no chão. Às vezes, o camponês sonhador vê um aerólito cortando o espaço na vertical, indo pro chão num campo de milho. Ele não sabe de onde vem a pedra. Agora vocês têm, clara e rapidinha, a explicação do fenômeno.
Se a terra fosse coberta de piolhos, que nem grãos de areia na beira do mar, a raça humana ia ser apagada, sofrendo umas dores terríveis. Que show! Eu, com asas de anjo, parado no ar, pra curtir o espetáculo.
Estrofe 10
Ó matemáticas brabas, eu não esqueci de vocês, desde que as lições sabidas de vocês, mais doces que mel, entraram no meu coração, tipo uma onda fresquinha. Eu queria, desde o berço, sem nem pensar, tomar na fonte de vocês, mais velha que o sol, e ainda continuo pisando no adro sagrado do templo solene de vocês, eu, o mais fiel dos seus iniciados. Tinha uma parada confusa na minha cabeça, um troço grosso que nem fumaça; mas eu consegui subir com fé os degraus que levam pro altar de vocês, e vocês jogaram fora esse véu escuro, que nem o vento joga fora o tabuleiro de xadrez. Botaram no lugar uma frieza doida, uma prudência afiada e uma lógica que não perdoa. Com a ajuda do leite forte de vocês, minha inteligência cresceu rapidinho e ficou gigante, no meio dessa claridade foda que vocês dão, de mão aberta, pra quem ama vocês de coração. Aritmética! Álgebra! Geometria! Trindade foda! Triângulo brilhante! Quem não conhece vocês é um idiota! Merecia levar os piores castigos; porque tem um desprezo cego na despreocupação ignorante dele; mas quem conhece e curte vocês não quer mais nada das coisas da terra; se contenta com as curtições mágicas de vocês; e, carregado nas asas escuras de vocês, só quer subir, num voo leve, fazendo uma hélice pra cima, rumo ao céu redondo. A terra só mostra pra ele ilusões e umas fantasmagorias morais; mas vocês, ó matemáticas curtas e grossas, com o encadeamento brabo das suas ideias teimosas e a firmeza das suas leis de ferro, fazem brilhar, pros olhos bobaços, um reflexo forte dessa verdade suprema que dá pra ver na ordem do universo.
Mas a ordem que cerca vocês, mostrada principalmente pela regularidade perfeita do quadrado, amigo do Pitágoras, é ainda mais foda; porque o Todo-Poderoso se mostrou todinho, ele e os atributos dele, nesse trampo memorável que foi tirar, das tripas do caos, os tesouros de teoremas de vocês e os esplendores maneiríssimos de vocês. Nas épocas antigas e nos tempos modernos, mais de uma imaginação braba viu o gênio dela, apavorado, olhando as figuras simbólicas de vocês desenhadas num papel que pegava fogo, tipo um monte de sinais misteriosos, cheios de um sopro escondido, que o povão sem noção não entende e que eram só a revelação foda de axiomas e hieróglifos eternos, que tavam aí antes do universo e vão ficar depois dele. Ela se pergunta, debruçada no buraco de um ponto de interrogação fatal, como é que as matemáticas têm tanta grandeza imponente e tanta verdade que ninguém discute, enquanto, se compara elas com o homem, só acha nesse cara um orgulho falso e mentira. Aí, esse cérebro foda, triste, que a amizade nobre dos conselhos de vocês faz sentir ainda mais a pequenez da humanidade e a loucura danada dela, afunda a cabeça, branquinha, numa mão magrela e fica perdido em umas meditações do além. Dobra os joelhos na frente de vocês, e a veneração dele presta homenagem à cara divina de vocês, tipo à própria imagem do Todo-Poderoso.
Na minha infância, vocês apareceram pra mim, numa noite de maio, com os raios da lua, numa pradaria verdinha, na beira de um riacho clarinho, todas três iguais em graça e vergonha, todas três cheias de majestade que nem rainhas. Deram uns passos na minha direção, com a veste longa de vocês, flutuando que nem vapor, e me puxaram pros peitos altivos de vocês, tipo um filho abençoado. Aí, eu corri com vontade, minhas mãos agarrando a garganta branquinha de vocês. Me alimentei, com gratidão, da maná farta de vocês, e senti que a humanidade crescia em mim e ficava melhor. Desde esse tempo, ó deusas rivais, eu não larguei vocês. Desde esse tempo, quantos planos brabos, quantas simpatias, que eu achava que tinha gravado nas páginas do meu coração, tipo em mármore, não foram apagados devagar, da minha razão desiludida, as linhas delas, que nem a aurora nascendo apaga as sombras da noite! Desde esse tempo, eu vi a morte, com a intenção, visível de cara, de encher os túmulos, arrasar os campos de batalha, engordados com sangue humano, e fazer crescer flores da manhã por cima dos ossos sinistros. Desde esse tempo, eu vi as revoluções do nosso globo; os terremotos, os vulcões, com a lava pegando fogo, o simum do deserto e os naufrágios da tempestade tiveram eu de espectador que não liga. Desde esse tempo, eu vi um monte de gerações humanas levantar, de manhã, as asas e os olhos pro espaço, com a alegria sem experiência da crisálida que curte a última transformação dela, e morrer, de noite, antes do sol se pôr, com a cabeça baixa, que nem flores murchas que o assobio triste do vento balança. Mas vocês, vocês ficam sempre as mesmas. Nenhuma mudança, nenhum ar podre roça os rochedos duros e os vales gigantes da identidade de vocês. As pirâmides simples de vocês vão durar mais que as pirâmides do Egito, formigueiros feitos pela burrice e a escravidão. O fim dos séculos vai ver ainda, de pé nas ruínas do tempo, os números cabulosos de vocês, as equações curtas e as linhas esculturais sentados do lado direito vingador do Todo-Poderoso, enquanto as estrelas vão afundar, com desespero, que nem trombas, na eternidade de uma noite horrível e universal, e a humanidade, fazendo careta, vai pensar em acertar as contas com o juízo final.
Valeu, pelos serviços foda que vocês me deram. Valeu, pelas qualidades estranhas que vocês botaram na minha inteligência. Sem vocês, na minha briga com o homem, eu talvez tivesse levado um pau. Sem vocês, ele tinha me jogado na areia e me feito beijar o pó dos pés dele. Sem vocês, com uma garra sacana, ele tinha rasgado minha carne e meus ossos. Mas eu fiquei esperto, que nem um atleta calejado. Vocês me deram a frieza que vem das ideias sublimes de vocês, sem paixão. Eu usei ela pra jogar fora com desprezo as curtições rápidas da minha viagem curta e pra mandar embora da minha porta as ofertas legais, mas falsas, dos meus iguais. Vocês me deram a prudência teimosa que dá pra sacar a cada passo nos métodos foda da análise, da síntese e da dedução de vocês. Eu usei ela pra desmontar as ciladas sacanas do meu inimigo mortal, pra atacar ele, por minha vez, com jeito, e enfiar, nas tripas do homem, um punhal afiado que vai ficar pra sempre cravado no corpo dele; porque é uma ferida que ele não levanta. Vocês me deram a lógica, que é tipo a alma mesma dos ensinamentos de vocês, cheios de sabedoria; com os silogismos dela, que o labirinto doido é ainda mais fácil de entender, minha inteligência sentiu dobrar as forças ousadas dela. Com essa ajuda braba, eu descobri, na humanidade, nadando pros cantos baixos, na frente do ódio, a maldade preta e nojenta, que apodrecia no meio de uns miasmas podres, se achando o umbigo. Fui o primeiro a descobrir, nas trevas das tripas dela, esse vício sacana, o mal! maior nela que o bem. Com essa arma envenenada que vocês me passaram, eu fiz descer, do pedestal dele, feito pela covardia do homem, o próprio Criador! Ele rangeu os dentes e aguentou essa ofensa nojenta; porque tinha pela frente alguém mais forte que ele. Mas eu vou largar ele de lado, que nem um monte de cordas, pra baixar meu voo…
O pensador Descartes fez, uma vez, essa parada: que nada sólido tinha sido construído em cima de vocês. Era um jeito esperto de mostrar que o primeiro que chega não ia, de cara, sacar o valor danado de vocês. De verdade, o que é mais sólido que as três qualidades principais já faladas, que sobem, trançadas tipo uma coroa única, no topo foda da arquitetura colossal de vocês? Monumento que cresce sem parar com descobertas todo dia, nas minas de diamante de vocês, e com explorações científicas, nos domínios foda de vocês. Ó matemáticas santas, que vocês, com esse comércio eterno, consolem o resto dos meus dias da maldade do homem e da injustiça do Grande-Tudo!
Estrofe 11
«Ó lâmpada de bico de prata, meus olhos te pegam no ar, parceira da abóbada das catedrais, e tentam sacar o motivo dessa suspensão. Dizem que tuas luzes clareiam, de noite, a galera que vem adorar o Todo-Poderoso e que tu mostra pros arrependidos o caminho pro altar. Escuta, pode até ser; mas… tu precisa mesmo fazer esses favores pra quem tu não deve nada? Deixa as colunas das basílicas afundadas no escuro; e, quando uma rajada da tempestade, com o demónio rodopiando em cima, carregado pelo espaço, entrar junto com ele no lugar santo, espalhando o medo, em vez de encarar, com coragem, o vento podre do príncipe do mal, apaga de repente com o sopro febril dele, pra ele poder, sem ninguém ver, escolher as vítimas dele entre os crentes ajoelhados. Se tu fizer isso, pode dizer que eu te devo toda a minha felicidade. Quando tu brilha assim, jogando tuas luzes meio incertas, mas que dão pro gasto, eu não ouso seguir as ideias do meu jeito, e fico, no pórtico sagrado, olhando pelo portal entreaberto os que escapam da minha vingança, no colo do Senhor. Ó lâmpada poética! Tu que seria minha amiga se pudesse me entender, quando meus pés pisam o basalto das igrejas, nas horas da noite, por que tu começa a brilhar dum jeito que, eu admito, me parece doido? Teus reflexos pegam as cores brancas da luz elétrica; o olho não te aguenta; e tu clareia com uma chama nova e forte os menores detalhes do canil do Criador, como se tivesse numa raiva santa. E, quando eu saio depois de blasfemar, tu vira de novo quase invisível, modesta e pálida, segura de ter feito um ato de justiça. Me conta aí; será que é porque tu conhece os cantos do meu coração que, quando eu apareço onde tu tá de olho, tu corre pra denunciar minha presença sacana e virar a atenção dos adoradores pro lado onde o inimigo dos homens acabou de aparecer? Tô achando que é isso; porque eu também tô começando a te sacar; e sei quem tu é, bruxa velha, que cuida tão bem das mesquitas sagradas, onde teu mestre curioso se exibe, que nem a crista de um galo. Guardiã esperta, tu se deu uma missão louca. Tô te avisando; na primeira vez que tu me apontar pra cautela dos meus iguais, com o aumento das tuas luzes fosforescentes, como eu não curto esse lance óptico, que, aliás, não tá em nenhum livro de física, eu te pego pela pele do peito, cravando minhas garras nas feridas da tua nuca sarnenta, e te jogo no Sena. Não tô dizendo que, quando eu não te faço nada, tu age de propósito dum jeito que me ferre. Aí, eu te deixo brilhar o quanto me der na telha; aí, tu vai zoar comigo com um sorriso que não apaga; aí, convencida que teu óleo criminoso não dá conta, tu vai mijar ele com amargura.»
Depois de falar assim, Maldoror não sai do templo e fica com os olhos cravados na lâmpada do lugar santo… Ele acha que vê uma provocação na atitude dessa lâmpada, que o irrita pra caramba com essa presença fora de hora. Ele pensa que, se tem alguma alma trancada nessa lâmpada, ela é covarde por não responder, com sinceridade, a um ataque na cara. Bate o ar com os braços nervosos e queria que a lâmpada virasse homem; ia fazer ele passar um perrengue brabo, ele promete. Mas como uma lâmpada ia virar homem? Não é natural. Ele não se conforma e vai pegar, no adro da pagode miserável, uma pedra chata de gume afiado. Joga ela pro alto com força… a corrente é cortada no meio, que nem erva pela foice, e o troço do culto cai no chão, espalhando o óleo nas lajes… Ele agarra a lâmpada pra levar ela pra fora, mas ela resiste e cresce. Parece que ele vê asas nos lados dela, e a parte de cima toma a forma de um busto de anjo. Tudo quer subir pro ar pra voar; mas ele segura firme com a mão. Uma lâmpada e um anjo virando um corpo só, olha só que coisa rara. Ele reconhece a forma da lâmpada; reconhece a forma do anjo; mas não consegue separar as duas na cabeça dele; de fato, na real, elas tão grudadas uma na outra e formam um corpo só, livre; mas ele acha que uma nuvem cobriu os olhos dele e tirou um pouco da visão boa dele. Mesmo assim, ele se prepara pra briga com coragem, porque o adversário não tem medo. A galera ingênua conta, pra quem quer acreditar, que o portal sagrado se fechou sozinho, girando nas dobradiças tristes, pra ninguém ver essa briga sem fé, que ia rolar dentro do santuário violado.
O cara de manto, enquanto leva umas feridas brabas com um gládio invisível, tenta puxar a cara do anjo pra perto da boca dele; só pensa nisso, e todo o esforço dele vai pra esse lado. O anjo perde a força e parece que tá sentindo o destino dele. Já luta só de leve, e dá pra ver a hora que o adversário vai poder beijar ele à vontade, se for isso que ele quer. Beleza, a hora chegou. Com os músculos dele, ele aperta a garganta do anjo, que não respira mais, e vira a cara dele, apertando ela contra o peito nojento dele. Por um segundo, ele se toca do destino que espera esse ser do céu, que ele até curtiria ter como amigo. Mas ele pensa que é o enviado do Senhor, e não segura a raiva dele. Tá feito; uma coisa horrível vai entrar na jaula do tempo! Ele se inclina e passa a língua, cheia de saliva, nessa cara angelical, que joga uns olhares pedindo ajuda. Passeia a língua um tempo nessa cara. Nossa!... olha!... olha só!... a cara branca e rosada virou preta que nem carvão! Solta uns cheiros podres. É a gangrena; não dá pra duvidar mais. O mal que rói se espalha pela cara toda, e daí vai pras partes de baixo; logo, o corpo todo é uma chaga imunda danada. Ele mesmo, apavorado (porque não achava que a língua dele tinha um veneno tão brabo), pega a lâmpada e sai correndo da igreja.
Já fora, ele vê no ar uma forma preta, de asas queimadas, que guia com dificuldade o voo dela pras bandas do céu. Eles se olham, enquanto o anjo sobe pras alturas tranquilas do bem, e ele, Maldoror, ao contrário, desce pros abismos doidos do mal… Que olhar! Tudo que a humanidade pensou em sessenta séculos, e o que ela ainda vai pensar nos séculos que vêm, cabia fácil ali, tanta coisa eles se falaram, nesse tchau supremo! Mas dá pra sacar que eram pensamentos mais altos que os que saem da inteligência humana; primeiro, por causa dos dois personagens, e depois, por causa da situação. Esse olhar juntou eles numa amizade eterna. Ele fica bobo que o Criador tenha uns missionários de uma alma tão foda. Por um instante, acha que se enganou e se pergunta se devia ter ido pelo caminho do mal, como fez. A confusão passa; ele teima na resolução dele; e é foda, pra ele, vencer cedo ou tarde o Grande-Tudo, pra mandar no lugar dele no universo todo e em legiões de anjos tão bonitos quanto. O anjo faz ele entender, sem falar, que vai voltar pro jeito original dele enquanto sobe pro céu; deixa cair uma lágrima, que refresca a testa de quem deu a gangrena pra ele; e some aos poucos, que nem um abutre, subindo no meio das nuvens.
O culpado olha pra lâmpada, motivo do que rolou antes. Corre que nem louco pelas ruas, vai pro Sena e joga a lâmpada por cima do parapeito. Ela gira uns instantes e afunda de vez nas águas sujas. Desde esse dia, toda noite, quando a noite cai, dá pra ver uma lâmpada brilhante que aparece e fica, com graça, na superfície do rio, na altura da ponte Napoleão, carregando, no lugar da alça, duas asinhas de anjo. Ela vai devagar pelas águas, passa por baixo dos arcos da ponte da Gare e da ponte de Austerlitz, e segue seu rastro quieto pelo Sena, até a ponte de l’Alma. Chegando lá, ela sobe fácil o curso do rio e volta, depois de quatro horas, pro ponto de onde saiu. E assim vai, a noite toda. As luzes dela, brancas que nem luz elétrica, apagam os bicos de gás que ficam nas duas margens, e entre eles ela passa que nem rainha, sozinha, impenetrável, com um sorriso que não apaga, sem que o óleo dela se espalhe com amargura. No começo, os barcos caçavam ela; mas ela driblava esses esforços bestas, escapava de todas as perseguições, mergulhando, tipo uma coquete, e aparecia de novo, mais pra frente, bem longe. Agora, os marinheiros supersticiosos, quando veem ela, remam pro lado contrário e seguram as músicas deles.
Quando tu passa por uma ponte, de noite, presta bem atenção; tu tem certeza de ver a lâmpada brilhando, aqui ou ali; mas dizem que ela não se mostra pra todo mundo. Quando um cara que tem algo na consciência passa pelas pontes, ela apaga de repente os reflexos dela, e o cara, apavorado, procura sem chance, com um olhar desesperado, a superfície e o lodo do rio. Ele sabe o que isso quer dizer. Queria acreditar que viu a luz do céu; mas pensa que a luz vinha da frente dos barcos ou do reflexo dos bicos de gás; e tá certo… Ele sabe que essa sumida é por causa dele; e, afundado em pensamentos tristes, aperta o passo pra chegar em casa. Aí, a lâmpada de bico de prata aparece de novo na superfície e segue sua marcha, por uns arabescos elegantes e doidos.
Estrofe 12
Escutem os pensamentos da minha infância, quando eu acordava, humanos, com a vara vermelha:
«Acabei de acordar; mas meu pensamento tá ainda meio grogue. Toda manhã, sinto um peso na cabeça. É raro eu descansar de noite; porque uns sonhos doidos me ferram quando consigo pegar no sono. De dia, meu pensamento se cansa em meditações esquisitas, enquanto meus olhos ficam vagando sem rumo pelo espaço; e, de noite, não consigo dormir. Quando é que eu durmo, então? Mesmo assim, a natureza precisa cobrar o que é dela. Como eu passo batido por ela, ela deixa minha cara pálida e faz meus olhos brilharem com a chama azeda da febre. Fora isso, eu não queria nada mais que não esgotar minha mente pensando sem parar; mas, mesmo que eu não quisesse, meus sentimentos apavorados me puxam pra essa ladeira sem eu poder fazer nada. Notei que as outras crianças são iguais a mim; mas elas tão ainda mais pálidas, e as sobrancelhas delas tão franzidas, que nem as dos caras, nossos irmãos mais velhos. Ó Criador do universo, não vou deixar, essa manhã, de te oferecer o incenso da minha reza de criança. Às vezes eu esqueço, e vi que, nesses dias, me sinto mais feliz que o normal; meu peito se abre, livre de qualquer aperto, e eu respiro, mais de boa, o ar cheiroso dos campos; já quando eu cumpro o dever chato, mandado pelos meus pais, de te mandar todo dia um cântico de louvor, junto com o tédio danado que vem da trabalheira de inventar ele, aí eu fico triste e irritado o resto do dia, porque não me parece lógico nem natural falar o que eu não penso, e eu corro pras solidões gigantes. Se eu peço pra eles explicarem esse estado estranho da minha alma, eles não me respondem. Eu queria te amar e te adorar; mas tu é poderoso demais, e tem medo nos meus hinos. Se, com um só pensamento teu, tu pode destruir ou criar mundos, minhas rezinhas fracas não vão te ajudar em nada; se, quando te dá na telha, tu manda o cólera ferrar as cidades, ou a morte carregar nas garras dela, sem escolher, as quatro idades da vida, eu não quero me amarrar com um amigo tão brabo. Não é que o ódio guie meus pensamentos; mas eu tenho medo, isso sim, do teu próprio ódio, que, por um capricho doido, pode sair do teu coração e virar gigante, que nem a envergadura do condor dos Andes. Teus joguinhos esquisitos tão fora do meu alcance, e eu ia ser, capaz, a primeira vítima. Tu é o Todo-Poderoso; não te discuto esse título, porque só tu tem o direito de carregar ele, e teus desejos, que ferram ou alegram, só acabam em ti mesmo. É exatamente por isso que ia me doer andar do lado da tua túnica cruel de safira, não como teu escravo, mas podendo virar um a qualquer hora. É verdade que, quando tu olha pra dentro de ti, pra julgar teu jeito soberano, se o fantasma duma injustiça antiga, feita contra essa humanidade coitada, que sempre te obedeceu como teu amigo mais fiel, levanta na tua frente as vértebras paradas duma espinha vingadora, teu olho doido deixa cair a lágrima apavorada do remorso atrasado, e aí, com os cabelos arrepiados, tu acha, tu mesmo, que vai tomar, de boa, a decisão de pendurar, pra sempre, nas silvas do nada, os jogos doidos da tua imaginação de tigre, que ia ser engraçada, se não fosse triste; mas eu sei também que a constância não cravou, nos teus ossos, tipo uma medula teimosa, o arpão da casa eterna dela, e que tu cai bastante vezes, tu e teus pensamentos, cobertos pela lepra preta do erro, no lago sinistro das maldições escuras. Quero acreditar que elas são sem querer (mesmo que tenham o veneno fatal delas), e que o mal e o bem, juntos, saem em pulos doidos do teu peito real gangrenado, que nem a correnteza da pedra, pelo charme secreto duma força cega; mas nada me prova isso. Eu vi, vezes demais, teus dentes nojentos rangerem de raiva, e tua cara foda, coberta pela espuma dos tempos, ficar vermelha, que nem carvão pegando fogo, por causa duma besteira microscópica que os homens fizeram, pra eu ficar mais tempo na frente do poste dessa ideia boazinha. Todo dia, de mãos juntas, eu vou mandar pra ti os tons da minha reza humilde, porque tem que ser assim; mas, te imploro, que tua providência não pense em mim; me deixa de lado, que nem o verme que rasteja debaixo da terra. Saiba que eu prefiro me entupir com vontade das plantas marinhas de ilhas desconhecidas e selvagens, que as ondas tropicais arrastam, no meio desses lugares, no colo espumoso delas, a saber que tu tá me olhando e que enfia, na minha consciência, teu bisturi que ri. Ela acabou de te mostrar todos os meus pensamentos, e espero que tua prudência bata palma fácil pro bom senso que eles carregam com a marca que não apaga. Tirando essas reservas sobre o tipo de relação mais ou menos chegada que eu devo ter contigo, minha boca tá pronta, a qualquer hora do dia, pra soltar, tipo um sopro falso, o monte de mentiras que tua glória cobra duro de cada humano, assim que a aurora sobe azulada, procurando a luz nas dobras de cetim do crepúsculo, que nem eu procuro a bondade, louco pelo amor do bem. Meus anos não são muitos, e mesmo assim eu já sinto que a bondade é só um monte de sílabas bonitas; não achei ela em lugar nenhum. Tu deixa teu jeito aparecer demais; devia esconder ele com mais malandragem. Fora isso, capaz que eu tô enganado e tu faz isso de propósito; porque tu sabe melhor que qualquer um como tem que se virar. Os homens, esses, botam a glória deles em te copiar; por isso a bondade santa não acha seu cantinho nos olhos ferozes deles: tal pai, tal filho. Seja o que for que se pense da tua inteligência, eu falo dela só como um crítico na moral. Não quero nada mais que ter me enganado. Não quero te mostrar o ódio que eu te tenho e que eu cuido com amor, que nem uma filha querida; porque é melhor esconder ele dos teus olhos e só ficar, na tua frente, com a cara dum censor brabo, encarregado de fiscalizar teus atos sujos. Assim, tu vai parar de mexer com ela, vai esquecer ela e vai destruir de vez essa pulga gulosa que rói teu fígado. Eu prefiro, antes, te fazer ouvir umas palavras de sonho e suavidade… Sim, foi tu que criou o mundo e tudo que tá nele. Tu é perfeito. Não te falta nenhuma virtude. Tu é muito poderoso, todo mundo sabe. Que o universo todo solte, a cada hora do tempo, teu cântico eterno! Os passarinhos te abençoam, voando pela campina. As estrelas são tuas… Que seja assim!»
Depois desses começos, se espantem de me ver como eu sou!
Estrofe 13
Eu tava caçando uma alma que fosse a minha cara, e não achava de jeito nenhum. Revirei cada canto da terra; minha teimosia não servia pra nada. Mesmo assim, eu não podia ficar sozinho. Precisava de alguém que curtisse meu jeito; precisava de alguém que pensasse igual a mim. Era de manhã; o sol subia no horizonte, todo majestoso, e olha só, na minha frente, surge também um jovem, que por onde passava fazia nascer flores. Ele veio até mim e, esticando a mão:
«Vim pra te encontrar, tu que me procura. Vamos abençoar esse dia feliz.»
Mas eu:
«Sai fora; não te chamei; não quero tua amizade…»
Era de noite; a escuridão começava a jogar o preto do véu dela por cima da natureza. Uma mina bonita, que eu mal conseguia enxergar, jogava também em mim uma influência maneira e me olhava com pena; mas não tinha coragem de me falar. Eu disse:
«Chega mais perto, pra eu sacar direito os traços da tua cara; porque a luz das estrelas não é forte o bastante pra iluminar eles de tão longe.»
Aí, com um passo tranquilo e os olhos baixos, ela pisou na grama do chão, vindo pro meu lado. Assim que eu vi ela:
«Dá pra ver que a bondade e a justiça moram no teu coração: a gente não ia dar certo junto. Agora, tu tá admirando minha beleza, que já bagunçou muita gente; mas, cedo ou tarde, tu ia se arrepender de ter me dado teu amor; porque tu não conhece minha alma. Não que eu ia te trair algum dia: quem se entrega pra mim com tanto abandono e confiança, com tanta confiança e abandono, eu me entrego pra ela; mas bota isso na tua cabeça, pra nunca esquecer: lobos e cordeiros não se olham com olhos meigos.»
O que me faltava, então, eu, que jogava fora, com tanto nojo, o que tinha de mais bonito na humanidade! O que me faltava, eu não sabia dizer. Ainda não tava acostumado a me explicar direitinho os bagulhos da minha cabeça, usando os jeitos que a filosofia manda. Sentei numa pedra, do lado do mar. Um navio tinha acabado de abrir todas as velas pra dar o fora dali: um pontinho que mal dava pra ver surgiu no horizonte e foi chegando aos poucos, empurrado pela ventania, crescendo rápido. A tempestade ia começar a dar porrada, e o céu já tava ficando escuro, virando um preto quase tão nojento quanto o coração do homem. O navio, que era um baita vaso de guerra, tinha jogado todas as âncoras, pra não ser arrastado pros rochedos da costa. O vento assobiava com raiva dos quatro cantos e rasgava as velas em pedaços. Os trovões estouravam no meio dos relâmpagos e não davam conta de superar o barulho dos lamentos que vinham da casa sem base, um túmulo que se mexia. O balanço daquelas ondas danadas não tinha quebrado as correntes das âncoras; mas as sacudidas abriram um rombo nos lados do navio. Um buraco danado; porque as bombas não davam conta de jogar fora os pacotes de água salgada que vinham, espumando, e caíam no convés que nem montanhas. O navio em apuros soltava tiros de canhão de alarme; mas afundava devagar… com majestade.
Quem nunca viu um navio afundar no meio dum furacão, entre os relâmpagos que piscam e o escuro mais fundo, enquanto os que tão dentro dele tão ferrados com esse desespero que vocês conhecem, esse não sabe das tretas da vida. No fim, escapou um grito geral de uma dor danada dos lados do navio, enquanto o mar dobrava os ataques brabos dele. Era o grito que o abandono das forças humanas arrancou. Cada um se cobria com o manto da resignação e entregava o destino nas mãos de Deus. Se amontoavam que nem um rebanho de ovelhas. O navio em apuros soltava tiros de canhão de alarme; mas afundava devagar… com majestade. Tinha ligado as bombas o dia todo. Esforço pra nada. A noite chegou, pesada, sem perdão, pra coroar esse show bonito. Cada um pensava que, uma vez na água, não ia mais respirar; porque, por mais que puxasse na memória, não se lembrava de ter nenhum peixe como avô; mas se mandava segurar o fôlego o máximo que desse, pra esticar a vida por dois ou três segundos; era essa a zoeira vingativa que ele queria mandar pra morte… O navio em apuros soltava tiros de canhão de alarme; mas afundava devagar… com majestade.
Ele não sabe que o navio, ao afundar, faz um rodamoinho brabo das ondas girando em cima delas mesmas; que o lodo sujo se misturou com as águas bagunçadas, e que uma força que vem de baixo, um contra-ataque da tempestade que ferra tudo lá em cima, dá uns trancos nervosos na água. Então, mesmo com a reserva de sangue-frio que ele junta antes, o cara que vai se afogar, depois de pensar mais, vai ter que se sentir feliz se esticar a vida, nos redemoinhos do abismo, por metade duma respirada normal, pra fazer bonito. Vai ser impossível, então, zoar com a morte, o desejo foda dele. O navio em apuros soltava tiros de canhão de alarme; mas afundava devagar… com majestade. Tá errado. Já não solta mais tiros de canhão, já não afunda. A casca de noz afundou de vez. Ó céu! Como dá pra viver depois de sentir tanta curtição! Acabei de ter a chance de ver as agonias de morte de vários dos meus iguais. Minuto a minuto, eu seguia as tretas das angústias deles. Às vezes, o mugido duma véia, que ficou louca de medo, se destacava no mercado. Às vezes, só o choro dum bebê de peito impedia de ouvir o comando das manobras. O navio tava muito longe pra eu pegar direitinho os gemidos que o vento me trazia; mas eu puxava ele com a vontade, e a ilusão de ótica era total. A cada quarto de hora, quando uma rajada de vento, mais forte que as outras, soltava uns tons sinistros no meio do grito dos petréis assustados, quebrava o navio num estalo de comprido e aumentava os lamentos dos que iam ser sacrificados pra morte, eu cravava na cara a ponta afiada dum ferro e pensava, na minha:
«Tão sofrendo mais que eu!»
Pelo menos, assim, eu tinha um jeito de comparar. Da costa, eu gritava com eles, mandando pragas e ameaças. Parecia que eles tinham que me ouvir! Parecia que meu ódio e minhas palavras, passando a distância, ferravam as leis físicas do som e chegavam, clarinhas, nos ouvidos deles, surdos com os rugidos do mar brabo! Parecia que eles tinham que pensar em mim e soltar a vingança deles numa raiva que não dava pra nada! De vez em quando, eu olhava pras cidades, dormindo em terra firme; e, vendo que ninguém sacava que um navio ia afundar, a poucos quilômetros da costa, com uma coroa de aves de rapina e um pedestal de gigantes aquáticos de barriga vazia, eu pegava ânimo, e a esperança voltava: então eu tava certo da perdição deles! Não tinham como escapar! Pra garantir, eu tinha ido pegar meu fuzil de dois canos, pra que, se algum náufrago tentasse chegar nos rochedos nadando, pra fugir duma morte na cara, uma bala no ombro quebrasse o braço dele e ferrasse o plano dele. Na hora mais braba da tempestade, vi, nadando nas águas com um esforço doido, uma cabeça firme, de cabelos arrepiados. Ele engolia litros d’água e afundava no abismo, balançado que nem rolha. Mas logo aparecia de novo, os cabelos pingando; e, cravando o olho na costa, parecia desafiar a morte. Era foda de sangue-frio. Uma ferida grande e sangrenta, feita por alguma ponta de recife escondida, marcava a cara valente e nobre dele. Não devia ter mais de dezesseis anos; porque, mal dava, no clarão dos relâmpagos que acendiam a noite, pra ver o buço de pêssego na boca dele. E agora ele tava a só duzentos metros do penhasco; e eu encarava ele fácil. Que coragem! Que espírito brabo! Como a firmeza da cabeça dele parecia zoar o destino, enquanto cortava a onda com força, com os sulcos se abrindo duro na frente dele!... Eu tinha decidido antes. Devia a mim mesmo cumprir minha promessa: a última hora tinha batido pra todos, ninguém ia escapar. Era essa minha decisão; nada mudava ela… Um barulho seco ecoou, e a cabeça afundou na hora, pra não voltar mais.
Não curti esse assassinato tanto quanto dá pra imaginar; e era justamente porque eu tava cheio de matar toda hora que fazia isso agora por costume, uma coisa que não dá pra largar, mas que só dá um prazer leve. O sentido tá calejado, duro. Que curtição eu ia tirar da morte desse cara, quando tinha mais de uma centena que iam se oferecer pra mim, num show, na última briga deles contra as ondas, depois que o navio afundasse? Dessa morte, eu nem tinha a emoção do perigo; porque a justiça humana, embalada pelo furacão daquela noite doida, dormia nas casas, a poucos passos de mim. Hoje, que os anos pesam no meu corpo, falo com sinceridade, como uma verdade foda e séria: eu não era tão cruel como depois contaram por aí entre os caras; mas, às vezes, a maldade deles ferrava tudo por anos inteiros. Aí, eu não tinha limite pra minha raiva; me davam uns ataques de crueldade, e eu virava um terror pra quem chegava perto dos meus olhos doidos, se fosse da minha raça. Se fosse um cavalo ou um cachorro, eu deixava passar: ouviram o que eu disse? Que pena, na noite daquela tempestade, eu tava num desses ataques, minha razão tinha dado um perdido (porque, normalmente, eu era tão cruel quanto, mas mais esperto); e tudo que caísse, dessa vez, nas minhas mãos, tinha que morrer; não tô querendo me desculpar dos meus erros. A culpa não é toda dos meus iguais. Só tô dizendo como é, esperando o juízo final que já me dá coceira no pescoço… Que me importa o juízo final! Minha razão nunca dá perdido, como eu disse pra enganar vocês. E, quando eu faço um crime, sei o que tô fazendo: não queria fazer outra coisa!
De pé na pedra, enquanto o furacão batia nos meus cabelos e no meu manto, eu espiava em êxtase essa força da tempestade, teimando contra um navio, debaixo dum céu sem estrelas. Segui, com uma pose de quem venceu, todas as tretas desse drama, desde a hora que o navio jogou as âncoras até o momento que afundou, roupa fatal que levou, pras tripas do mar, os que tinham se coberto com ela que nem com um manto. Mas tava chegando a hora que eu mesmo ia entrar como ator nessas cenas da natureza bagunçada. Quando o lugar onde o navio tinha brigado mostrou claro que ele tinha ido passar o resto dos dias no térreo do mar, aí os que tinham sido arrastados pelas ondas apareceram de novo, em parte, na superfície. Se agarraram de dois em dois, de três em três; era o jeito de não salvar a vida; porque os movimentos deles ficavam atrapalhados, e eles afundavam que nem jarros furados… Que é essa tropa de monstros do mar que corta as ondas rápido? São seis; as barbatanas deles são fortes e abrem caminho no meio das vagas brabas. De todos esses humanos, que mexem os quatro braços e pernas nesse continente mole, os tubarões logo fazem uma omelete sem ovo e dividem ela pela lei do mais forte. O sangue se mistura com as águas, e as águas se misturam com o sangue. Os olhos ferozes deles clareiam o suficiente a cena do massacre…
Mas que é esse barulho das águas ainda, lá longe, no horizonte? Parece uma tromba que tá vindo. Que remadas! Sacuei o que é. Uma fêmea gigante de tubarão vem pegar uma parte do patê de fígado de pato e comer um cozido frio. Tá furiosa; porque chega com uma fome danada. Uma briga rola entre ela e os tubarões, disputando os poucos pedaços palpitantes que flutuam por aí, calados, na superfície do creme vermelho. Pra direita, pra esquerda, ela manda umas dentadas que matam na hora. Mas ainda tem três tubarões vivos em volta dela, e ela precisa girar pra todo lado pra desmontar as jogadas deles. Com uma emoção crescente, que eu nunca tinha sentido antes, o espectador, na costa, curte essa batalha naval dum tipo novo. Tá com os olhos cravados nessa fêmea de tubarão valente, de dentes brabos. Não hesita mais, encosta o fuzil no ombro e, com a mira de sempre, acerta a segunda bala na orelha dum dos tubarões, bem quando ele subia numa onda. Sobram dois tubarões que só ficam mais teimosos. Do alto da pedra, o cara de saliva salgada se joga no mar e nada pro tapete colorido, segurando na mão essa faca de aço que nunca larga. Agora, cada tubarão tem um inimigo pra encarar. Ele vai pro adversário cansado e, sem correria, enfia a lâmina afiada na barriga dele. A fortaleza móvel se livra fácil do último oponente…
Tão frente a frente o nadador e a fêmea de tubarão, salva por ele. Se encararam nos olhos por uns minutos; e cada um ficou bobo de ver tanta ferocidade no olhar do outro. Nadam em círculos, não se perdem de vista, e pensam consigo:
«Tava errado até agora; esse aí é mais mau que eu.»
Aí, de acordo, entre duas águas, deslizaram um pro outro, com uma admiração mútua, a fêmea de tubarão abrindo a água com as barbatanas, Maldoror batendo a onda com os braços; e seguraram o fôlego, numa veneração braba, cada um querendo ver, pela primeira vez, o seu retrato vivo. Chegando a três metros um do outro, sem esforço nenhum, caíram de repente um contra o outro, que nem dois ímãs, e se abraçaram com dignidade e gratidão, num abraço tão meigo quanto o dum irmão ou duma irmã. Os desejos da carne vieram logo atrás dessa prova de amizade. Duas coxas nervosas se grudaram firme na pele viscosa do monstro, que nem duas sanguessugas; e os braços e as barbatanas se enrolaram no corpo do objeto amado que cercavam com amor, enquanto as gargantas e os peitos logo viraram uma massa glauca com cheiro de alga; no meio da tempestade que continuava a rolar; na luz dos relâmpagos; tendo como cama de núpcias a onda espumosa, levados por uma corrente submarina que nem num berço, e rolando sobre si mesmos pras profundezas desconhecidas do abismo, eles se juntaram num acasalamento longo, casto e nojento!... Enfim, eu tinha achado alguém que parecia comigo!... De agora em diante, eu não tava mais sozinho na vida!... Ela tinha as mesmas ideias que eu!... Eu tava na frente do meu primeiro amor!
Estrofe 14
O Sena tá levando um corpo humano. Nessas horas, ele fica todo solene. O defunto inchado se segura nas águas; some debaixo do arco duma ponte; mas, mais pra frente, aparece de novo, girando devagar em cima dele mesmo, tipo uma roda de moinho, e afundando de vez em quando. Um mestre de barco, com uma vara, pega ele enquanto passa e puxa pra margem. Antes de levar o corpo pro IML, deixam ele um tempo na beira, pra tentar trazer ele de volta. A galera se junta toda compacta em volta do corpo. Quem não consegue ver, porque tá atrás, empurra o quanto pode os que tão na frente. Cada um pensa consigo:
«Não ia ser eu que me afogava.»
Dão pena do jovem que se matou; admiram ele; mas ninguém copia ele. E mesmo assim, ele achou super natural se dar a morte, não vendo nada na terra que desse pra satisfazer ele, e querendo algo mais alto. A cara dele é fina, e as roupas dele são chiques. Será que ele ainda tem dezessete anos? É morrer novo! A multidão paralisada fica jogando os olhos parados em cima dele… Escurece. Cada um vai saindo quieto. Ninguém tem coragem de virar o afogado, pra fazer ele cuspir a água que enche o corpo dele. Tiveram medo de parecer sensíveis, e ninguém mexeu um dedo, escondido na gola da camisa. Um sai assobiando uma tirolesa doida e aguda; outro estala os dedos que nem castanholas…
Atormentado pelo pensamento escuro dele, Maldoror, no cavalo dele, passa por esse lugar na velocidade dum raio. Vê o afogado; já chega. Na hora, ele para o cavalo e desce do estribo. Levanta o jovem sem nojo e faz ele soltar um monte d’água. Só de pensar que esse corpo morto podia voltar à vida com a mão dele, ele sente o coração pular, com essa vibe foda, e capricha mais ainda no esforço. Nada feito! Nada feito, eu disse, e é verdade. O defunto fica parado e deixa virar ele pra todo lado. Ele esfrega as têmporas; esfrega um braço aqui, uma perna ali; sopra por uma hora na boca, encostando os lábios nos lábios do desconhecido. Parece que finalmente ele sente, com a mão no peito, um batimento leve. O afogado vive! Nesse momento brabo, dava pra notar que várias rugas sumiram da testa do cavaleiro, deixando ele dez anos mais novo. Mas, que pena! As rugas vão voltar, talvez amanhã, talvez assim que ele saia das margens do Sena.
Enquanto isso, o afogado abre uns olhos apagados e, com um sorriso fraquinho, agradece o cara que salvou ele; mas tá fraco ainda, e não consegue mexer nada. Salvar a vida de alguém, que maneiro! E como esse rolé apaga umas faltas! O cara de lábios de bronze, que até então tava ocupado em tirar ele da morte, olha o jovem com mais atenção, e os traços dele não parecem estranhos. Ele pensa que entre o asfixiado, de cabelos loiros, e Holzer, não tem muita diferença. Olha só como eles se abraçam com vontade! Não importa! O cara de pupila de jaspe quer manter a pose dum papel sério. Sem falar nada, pega o amigo dele, bota na garupa, e o cavalo sai galopando.
Ó tu, Holzer, que se achava tão esperto e forte, não viu, pelo teu próprio exemplo, como é duro, num ataque de desespero, segurar o sangue-frio que tu tanto se gaba? Espero que tu não me dê mais um sofrimento desses, e eu, do meu lado, te prometi que nunca vou tentar contra minha vida.
Estrofe 15
Tem horas na vida que o cara, de cabelo cheio de piolho, joga, com o olho fixo, uns olhares selvagens pras membranas verdes do espaço; porque parece que ele ouve, na frente dele, as zoeiras irônicas dum fantasma. Ele cambaleia e abaixa a cabeça: o que ele ouviu foi a voz da consciência. Aí, ele sai correndo de casa, com a velocidade dum louco, pega o primeiro caminho que aparece na frente do seu choque e engole as planícies duras do interior. Mas o fantasma amarelo não larga ele do olho e corre atrás com a mesma rapidez. Às vezes, numa noite de tempestade, enquanto legiões de polvos com asas, que de longe parecem corvos, pairam por cima das nuvens, indo com um remo duro pras cidades dos humanos, com a missão de avisar eles pra mudar de atitude, o seixo, de olho escuro, vê dois seres passarem no clarão do relâmpago, um atrás do outro; e, secando uma lágrima rápida de pena, que escorre da pálpebra gelada dele, ele grita:
«Claro, ele merece; e é só justiça.»
Depois de falar isso, ele volta pra pose braba dele e continua olhando, com um tremor nervoso, a caça ao homem, e os lábios grandões da vagina de sombra, de onde saem, sem parar, tipo um rio, uns espermatozoides tenebrosos danados que voam no éter sinistro, escondendo, com o desdobramento brabo das asas de morcego deles, a natureza toda, e as legiões solitárias de polvos, que ficam cabisbaixas vendo essas faíscas mudas e que não dá pra explicar. Mas, enquanto isso, a corrida braba continua entre os dois corredores que não cansam, e o fantasma solta pela boca umas torrentes de fogo nas costas queimadas da antilope humana. Se, fazendo esse dever, ele cruza no caminho com a piedade que quer barrar ele, ele cede com nojo aos pedidos dela e deixa o cara escapar. O fantasma estala a língua, como se dissesse pra ele mesmo que vai parar a perseguição, e volta pro covil dele, até nova ordem. A voz dele de condenado ecoa até as camadas mais longe do espaço; e, quando o urro medonho dele entra no coração humano, esse prefere, dizem, ter a morte como mãe que o remorso como filho.
Ele enfiou a cabeça até os ombros nas complicações terrosas dum buraco; mas a consciência faz esse truque de avestruz virar fumaça. O buraco some, gota de éter; a luz aparece, com o cortejo de raios dela, tipo um bando de maçaricos caindo nas lavandas; e o cara se vê cara a cara com ele mesmo, de olhos abertos e pálidos. Eu vi ele indo pro lado do mar, subindo num promontório todo recortado e batido pela sobrancelha da espuma; e, que nem flecha, se jogar nas ondas. Olha o milagre: o defunto apareceu de novo, no dia seguinte, na superfície do mar, que devolvia pra costa esse resto de carne. O cara se soltava do molde que o corpo dele tinha cavado na areia, espremia a água dos cabelos molhados e, com a testa calada e abaixada, pegava de novo o caminho da vida. A consciência julga duro nossos pensamentos e atos mais escondidos, e não erra. Como ela muitas vezes não consegue evitar o mal, não para de caçar o homem que nem raposa, ainda mais no escuro. Uns olhos vingadores, que a ciência burra chama de meteoros, jogam uma chama pálida, passam rolando em cima deles mesmos e falam umas palavras de mistério… que ele entende! Aí, a cama dele é sacudida pelas convulsões do corpo dele, esmagado pelo peso da insônia, e ele ouve a respiração sinistra dos barulhos vagos da noite. O anjo do sono mesmo, ferido de morte na testa por uma pedra que ninguém sabe de onde veio, larga o trampo dele e sobe pros céus.
Beleza, eu me coloco pra defender o homem, dessa vez; eu, o cara que despreza todas as virtudes; eu, que o Criador não conseguiu esquecer, desde o dia foda que, derrubando do pedestal os arquivos do céu, onde, por uma sacanagem nojenta que eu nem sei, tavam escritos o poder e a eternidade dele, eu cravei minhas quatrocentas ventosas debaixo da axila dele e arranquei uns gritos brabos… Eles viraram víboras saindo pela boca dele e foram se esconder nas moitas, nas muralhas em ruínas, de tocaia de dia, de tocaia de noite. Esses gritos, que viraram rastejantes e cheios de anéis danados, com uma cabeça pequena e achatada, olhos sacanas, juraram ficar de olho na inocência humana; e, quando essa passeia pelos matos embolados, ou nas encostas dos taludes, ou nas areias das dunas, logo muda de ideia. Se, mesmo assim, ainda dá tempo; porque, às vezes, o cara vê o veneno entrando nas veias da perna dele, por uma mordida quase que não dá pra sentir, antes que ele consiga dar meia-volta e correr pro largo. Foi assim que o Criador, segurando um sangue-frio foda, até nas dores mais brabas, soube tirar, do próprio peito dele, uns germes que ferram os moradores da terra.
Qual não foi o choque dele quando viu Maldoror, virado polvo, avançar contra o corpo dele com as oito patas monstruosas, cada uma delas, tira firme, que podia abraçar fácil o tamanho dum planeta. Pego desprevenido, ele se debateu, por uns instantes, contra esse abraço viscoso, que apertava cada vez mais… eu temi algum golpe sacana da parte dele; depois de me entupir dos glóbulos desse sangue sagrado, me soltei de repente do corpo majestoso dele e me escondi numa caverna, que, desde então, ficou sendo minha casa. Depois de umas buscas que não deram em nada, ele não conseguiu me achar lá. Isso foi há um tempão; mas acho que agora ele sabe onde fica minha casa; ele se cuida pra não entrar lá; a gente vive, os dois, que nem dois reis vizinhos, que conhecem as forças um do outro, não conseguem se vencer e tão cansados das brigas inúteis do passado. Ele tem medo de mim, e eu tenho medo dele; cada um, sem ser derrotado, sentiu os golpes duros do adversário, e ficamos nisso. Mas eu tô pronto pra começar a briga de novo, quando ele quiser. Só que ele não espere um momento que dê vantagem pros planos escondidos dele. Eu vou tá sempre esperto, de olho nele.
Que ele não mande mais pra terra a consciência e os tormentos dela. Eu ensinei pros homens as armas pra lutar contra ela e levar vantagem. Eles ainda não tão acostumados com ela; mas tu sabe que, pra mim, ela é que nem palha que o vento leva. Dou o mesmo valor pra ela. Se eu quisesse aproveitar a chance que tá na minha frente pra enrolar essas discussões poéticas, eu diria que até dou mais valor pra palha que pra consciência; porque a palha serve pro boi que rumina ela, enquanto a consciência só sabe mostrar as garras de aço dela. Elas levaram um fracasso doído no dia que se botaram na minha frente. Como a consciência tinha sido mandada pelo Criador, achei que não era pra me deixar barrar o caminho por ela. Se ela tivesse vindo com a modéstia e a humildade que combinam com o lugar dela, e que ela nunca devia ter largado, eu tinha ouvido ela. Não curtia o orgulho dela. Estiquei uma mão e, com meus dedos, esmaguei as garras; elas viraram pó, com a pressão cada vez maior desse almofariz novo. Estiquei a outra mão e arranquei a cabeça dela. Depois expulsei essa mina da minha casa a chicotadas, e nunca mais vi ela. Guardei a cabeça dela pra lembrar da minha vitória…
Com uma cabeça na mão, que eu roía o crânio, fiquei num pé só, que nem garça, na beira do precipício cavado nos lados da montanha. Me viram descer pro vale, enquanto a pele do meu peito ficava parada e calma, que nem tampa de túmulo! Com uma cabeça na mão, que eu roía o crânio, nadei nos abismos mais perigosos, passei pelos recifes mortais e mergulhei mais fundo que as correntes, pra ver, tipo um estranho, as brigas dos monstros do mar; me afastei da costa até perder ela da minha vista afiada; e as cãibras nojentas, com o magnetismo paralisante delas, rondavam meus braços e pernas, que cortavam as ondas com movimentos fortes, sem ousar chegar perto. Me viram voltar, são e salvo, pra praia, enquanto a pele do meu peito ficava parada e calma, que nem tampa de túmulo! Com uma cabeça na mão, que eu roía o crânio, subi os degraus duma torre alta. Cheguei, com as pernas cansadas, na plataforma que dava vertigem. Olhei a campina, o mar; olhei o sol, o céu; chutando o granito que não recuou, desafiei a morte e a vingança divina com um grito foda e me joguei, que nem pedra, na boca do espaço. Os caras ouviram o baque doído e barulhento que veio do choque do chão com a cabeça da consciência, que eu larguei na queda. Me viram descer, com a lentidão dum pássaro, levado por uma nuvem invisível, e pegar a cabeça, pra forçar ela a ver um triplo crime que eu ia fazer naquele mesmo dia, enquanto a pele do meu peito ficava parada e calma, que nem tampa de túmulo!
Com uma cabeça na mão, que eu roía o crânio, fui pro lugar onde tão os postes que seguram a guilhotina. Botei a graça suave dos pescoços de três minas novas debaixo da lâmina. Carrasco das altas obras, soltei a corda com a experiência que parecia de uma vida inteira; e o ferro triangular, caindo de lado, cortou três cabeças que me olhavam com suavidade. Depois botei a minha debaixo do cutelo pesado, e o carrasco preparou o trampo dele. Três vezes, a lâmina desceu nas ranhuras com força nova; três vezes, minha carcaça, principalmente na base do pescoço, foi sacudida até o fundo, que nem quando a gente sonha que tá sendo esmagado por uma casa caindo. O povo bobo me deixou passar, pra eu sair da praça fúnebre; me viu abrir com os cotovelos as ondas mexidas deles e me mexer, cheio de vida, andando na frente, de cabeça erguida, enquanto a pele do meu peito ficava parada e calma, que nem tampa de túmulo! Eu disse que queria defender o homem, dessa vez; mas tenho medo que minha defesa não seja a verdade; e, por isso, prefiro ficar quieto. A humanidade vai curtir essa medida com gratidão!